Às 6:33 me foi dada a lucidez.
Não roubei. Me entregaram depois de ter encontrado com ele, olhado nos seus olhos
e percebido que não é pavoroso, é só um pobre coitado como eu. Estava acordada
quando o sol nasceu no meio da minha testa e ele entrou no quarto. Mesmo
desperta, me sentia desorientada. Séculos de doutrina cristã me catequizaram para
o bom, bonito e belo, mas ninguém me preparou para a purulenta sombra. Ele se
aproximou. De tão surpresa, só me ocorreu encará-lo. O que pode uma
mulher de 80 anos, à beira da morte, desdentada e nua, em cima de uma cama num
quarto fechado, fazer quando Lúcifer chega? Gritar? A solidão não me permitiu.
Emocionei. Sou agnóstica, mas a idade me fez compreender que o absoluto
persegue os desumanos e que com ou sem divindade, somos todos iguais: falhos.
É, ele olhou nos meus olhos, me viu sem artifícios. Consenti. Passei tanto
tempo desejando que alguém me amasse assim, com a barriga caindo no chão, peito
flácido pendendo na cintura, cabelo ralo, branco, sal de frutas, que quando o tinhoso
chegou, o medo já era desejo. Era a vontade de que alguém gostasse de mim
mancando com a perna direita e tremendo com as mãos, que elogiasse o bigode
grosso e cinza acima dos lábios murchos. Quando, desnuda, gaguejei a palavra
amor, o demônio me deu um abraço longo. Se não fosse piegas dizer que os meus
olhos lacrimejaram, diria. Prefiro admitir que a dignidade me fez chorar. A
dignidade dele. O diabo me encontrou decrépita e não me subjugou. No meu
desamparo, ele não me humilhou. Usou o seu poder para me aceitar. Você rouba almas?
Me acolheu. São as próprias pessoas que se rifam, se vergam, se renunciam. Vi
na face dele a de Deus. Por que? Truques. É da música que a vida canta, atinar
que o Diabo é Deus. O sagrado e o profano, um só, a ciência e a religião,
brincadeiras de passatempo. Olhei de novo e vi na face dele, a minha. O fim das ilusões chegou numa piada. Gargalhei.
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Wednesday, March 22, 2017
Monday, August 11, 2014
Aqui é Carl Jung
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Oi Carl, sou eu, Pat. Preciso bater um papo com você. Me
liga de volta? Beijos!
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Carl, você tá aí? Queria te fazer uma pergunta. Me liga. Beijos!
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Tá de mal comigo, é? Continuo esperando a sua ligação. Tô com dúvida sobre o processo alquímico e gostaria de ouvir a sua opinião. É urgente. Beijo.
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Jung, querido, sinto que você tá aí, só não entendo porque não quer
falar comigo... tudo bem, quando você resolver, me liga.
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Tudo bem o caneco. Tá achando que é quem, hein? O Papa? Ficou rico e esqueceu dos amigos? Para de ser mal educado e atende esse telefone!
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Eu de novo. Só pra você saber, já tentei conversar com os seus discípulos, mas eles são uns perdidos, uns papagaios de pirata, só repetem o
que você escreveu. Se bobear, eu pago para explicar para eles do que se trata.
Nenhum deles passou conscientemente pelo nigredo como você. Albedo e rubedo então, esquece. Ah, Jung,
atende, vai. Como sua ex-paciente e amiga de longa data, peço que você me ajude. Tô de saco cheio desse povo que faz cara de sabido, fica vomitando teoria, mas nunca vivenciou nada.
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Carl Gustav Jung, agora perdeu a graça. Você esqueceu do seu
juramento a Hipócrates? A integridade da vida e a assistência aos doentes? A
minha pergunta é simples, não vou tomar muito o seu tempo, prometo. É que rolou
um solutio. No duro, não foi só em sonho. Eu me afoguei mesmo. Jung, me liga de
volta... você sabe que não dá pra ficar deixando recado sobre esses assuntos. Beijo.
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Bem, como você não quer me atender, vou tentar explicar por
aqui mesmo, talvez assim você resolva me ligar de volta. Na quinta passada, final de tarde, me deu na telha de ir pra praia no
Farol da Barra... quando estava andando nas pedras, uma onda gigante veio e me jogou no
mar. Antes que você ache que foi sonho, não foi. Aconteceu de verdade. Aliás, essa é
uma das perguntas que tenho para você: tem diferença de solutio sonhado e
solutio real? Mas voltando, acredita que eu tava usando um vestido longo branco? Juro! Tinha decidido assim, do nada. E eu que imaginava que o afogamento da noiva fosse apenas uma metáfora... mas a água me puxou de golpe, o vestido junto pesando, me levando pro fundo... eu, desesperada, pensando: tá vendo, queria virar Iemanjá, taí, nega, ela agora vai te levar. Contando pode até parecer um desvario da minha parte, mas você me conhece, sabe que não sou de brincar com os desígnios da natureza e muito menos com a força dos arquétipos femininos que se escondem no oceano. Parecia uma lição das mais aterrorizantes. Nunca bebi tanta água salgada, nem nos tempos em que pegava morey boogie. Só não me afoguei porque a onda...
(fim da mensagem)
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Um porre, essa secretária, viu? Bem, continuando, onde é que eu
tava mesmo? Ah, eu me afoguei, melhor, quase me afoguei, mas, pasme, a mesma onda
que me levou, me trouxe de volta. Não é extraordinário? A passagem mais fundamental do solutio ao vivo e a cores. Aí, quando eu voltei para casa, claro que não imediatamente, mas depois de ter me recuperado do susto, comecei a ler o Misterium Conjunctionis e fiquei estupefata quando vi que você havia dedicado um capítulo inteiro às propriedades do Sal. Então fui associando o aguaceiro ao albedo, à diluição do ego... ah, desisto, é impossível contar uma experiência de dissolução psíquica para uma
máquina.
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Tô começando a ficar preocupada com você. Não retorna os meus telefonemas e nem responde aos meus e-mails. Aconteceu alguma coisa?
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Jung, para de se fingir de morto e atende esse telefone!!!!!!
Aqui é Carl Jung. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Olha só, não vou ficar aqui de braços cruzados esperando que a minha casa pegue fogo na próxima operação alquímica. Preciso me preparar para os riscos da projeção do inconsciente na minha vida real. Comprei uma passagem para Zurique. Chego amanhã, às 5:40, em Kloten, vôo da Swissair número SWR92. Oxalá o avião não exploda como prova de mortificatio. Se você puder me pegar no aeroporto, vou adorar. Caso contrário, pode esperar as batidas na sua porta.
Olha só, não vou ficar aqui de braços cruzados esperando que a minha casa pegue fogo na próxima operação alquímica. Preciso me preparar para os riscos da projeção do inconsciente na minha vida real. Comprei uma passagem para Zurique. Chego amanhã, às 5:40, em Kloten, vôo da Swissair número SWR92. Oxalá o avião não exploda como prova de mortificatio. Se você puder me pegar no aeroporto, vou adorar. Caso contrário, pode esperar as batidas na sua porta.
Aqui é Pat. No momento, não posso atender. Após o sinal, deixe a sua mensagem.
Pat, minha querida, sou eu, Carl. Estava num retiro de meditação tibetana e só ouvi os seus recados hoje. Te vejo no aeroporto. Feliz com o nosso reencontro. Bis morgen!
Sunday, August 10, 2014
Dia dos Pais
Quando eu era criança, uns 10 anos mais ou menos, tinha
certeza que as orelhas do meu avô Pedro, pai do meu pai, aumentavam de tamanho
a cada vez que eu o encontrava. Sem mentira nenhuma, eu acreditava piamente nisso
porque as orelhas do meu avô não eram só imensas, elas eram cada vez maiores.
Acho que em qualquer pessoa orelhas gigantes ficam feias. Em
meu avô era um charme. Uma marca própria. Ele definitivamente não seria ele sem
aquelas orelhas que cresciam sem parar.
Talvez as orelhas avantajadas se expliquem pelo fato do meu avô ter sido músico. A bem da verdade, é preciso dizer que ele também tinha uma padaria, uma fazenda e outros negócios, mas o
que todo mundo, inclusive eu, lembrava de primeira era que ele era um músico talentoso e tocava vários
instrumentos - de ouvido, claro!
Quando completei 3 anos, ele me deu um violino e um livro de partituras, acreditando que eu iria aprender a tocar o instrumento da mesma forma que ele: por conta própria. Sim, ele era um auto-didata e tinha muito orgulho disso.
Quando completei 3 anos, ele me deu um violino e um livro de partituras, acreditando que eu iria aprender a tocar o instrumento da mesma forma que ele: por conta própria. Sim, ele era um auto-didata e tinha muito orgulho disso.
Ao contrário do meu avô Pedro, que morreu com 95 anos, as minhas orelhas possuem um
tamanho aparentemente normal e, pelo que me consta, o crescimento delas não é
perceptível nem para mim e nem para os outros. Quem sabe, por essa razão, eu nunca tenha aprendido a tocar nenhum
instrumento. E por algum outro motivo, que não sei explicar, nunca tenha tentado.
Além de músico, ter uma padaria e uma fazenda, o meu avô também era poeta. Quando nos visitava em Salvador, sempre levava para mim vários poemas que havia escrito em papeizinhos soltos com a sua letra tremida. Mesmo com mal de Parkinson, fazia questão de escrever de próprio punho os seus versos. Sentávamos na varanda lá de casa e pedia para que eu lesse em voz alta os poemas que havia escrito e que, eventualmente, seriam musicados.
Além de músico, ter uma padaria e uma fazenda, o meu avô também era poeta. Quando nos visitava em Salvador, sempre levava para mim vários poemas que havia escrito em papeizinhos soltos com a sua letra tremida. Mesmo com mal de Parkinson, fazia questão de escrever de próprio punho os seus versos. Sentávamos na varanda lá de casa e pedia para que eu lesse em voz alta os poemas que havia escrito e que, eventualmente, seriam musicados.
Voltando ao violino, até hoje é um mistério familiar porque o
meu avô Pirocas, apelido pelo qual era conhecido, entre tantos netos, elegeu a
mim para receber essa relíquia de família. Sempre me achei especial por isso. No
meu imaginário infantil, eu era a escolhida.
Certa vez, perguntei aos meus pais e eles me responderam: ele gostava muito de você. Resposta besta, conclui. Suficiente para que eu, já adulta, começasse a fantasiar que a escolha dele representava uma façanha invisível do destino com um significado extraordinário, como um enigma a ser descoberto.
Pode demorar, mas ainda vou encontrar com o meu avô, que morreu quando eu tinha 15 anos e perguntar pra ele: vô, por que eu? Será que, quando eu nasci, você olhou para as minhas orelhas e acreditou que, um dia, elas também seriam tão imensas como as suas?
Certa vez, perguntei aos meus pais e eles me responderam: ele gostava muito de você. Resposta besta, conclui. Suficiente para que eu, já adulta, começasse a fantasiar que a escolha dele representava uma façanha invisível do destino com um significado extraordinário, como um enigma a ser descoberto.
Pode demorar, mas ainda vou encontrar com o meu avô, que morreu quando eu tinha 15 anos e perguntar pra ele: vô, por que eu? Será que, quando eu nasci, você olhou para as minhas orelhas e acreditou que, um dia, elas também seriam tão imensas como as suas?
Monday, June 30, 2014
Faraó... ó ó ó.
Uma vez, encontrei Blaise Pascal no carnaval em Salvador e ele, em pleno frenesi, me contou que a vida é “um nada na perspectiva do tudo e um tudo na perspectiva do
nada”. No outro dia, sóbrio, desmentiu tudo.
Sunday, January 19, 2014
O Diabo e eu
Pat: Queria bater um papo com você.
Deus: Estou lhe ouvindo.
Pat: Estava pensando em subir para a superfície, levando o Diabo comigo.
Deus: Ou sobe sozinha ou fica aí embaixo com ele.
Pat: Por quê???
Deus: Você já sabe porquê.
Pat: Ele jurou que está preparado.
Deus: E você acreditou?
Pat: Quero dar um crédito a ele.
Deus: Nem pensar.
Pat: Parece Síndrome de Estocolmo, mas depois de 4 anos no mundo subterrâneo, não posso largá-lo assim, ao que você dará.
Deus: Pode sim. Logo, logo ele vai achar uma nova companhia.
Pat: Quero que ele suba comigo.
Deus: Estou começando a desconfiar que você vai ter que ficar mais tempo enfurnada
no subsolo.
Pat: Isso não!!!
Deus: Então suba já e pare com essa conversa fiada.
Pat: Você desaprendeu a acreditar na metamorfose?
Deus: Eu tenho discernimento, coisa que você deveria ter
internalizado depois da sua longa estadia no inferno.
Pat: Eu tenho compaixão.
Deus: Se você tem compaixão, deixe-o aí.
Pat: As pessoas se transformam com os erros, viram adultas.
Deus: Ainda não é o caso dele.
Pat: Sem ele, eu não teria conseguido ver a minha sombra.
Deus: Exatamente. Ele cumpriu o papel que lhe foi destinado.
Pat: É injusto. Ele merece sair da escuridão.
Deus: Você não leu o Livro Vermelho do Jung?
Pat: Li.
Deus: E então?
Pat: O Jung é o Jung. E eu, sou eu. Quero levar o Diabo comigo.
Deus: Estou perdendo a paciência. Ou você sobe sozinha ou vou lhe largar de novo no mundo inferior.
Pat: Sem ele, eu não teria conseguido ver a minha sombra.
Deus: Exatamente. Ele cumpriu o papel que lhe foi destinado.
Pat: É injusto. Ele merece sair da escuridão.
Deus: Você não leu o Livro Vermelho do Jung?
Pat: Li.
Deus: E então?
Pat: O Jung é o Jung. E eu, sou eu. Quero levar o Diabo comigo.
Deus: Estou perdendo a paciência. Ou você sobe sozinha ou vou lhe largar de novo no mundo inferior.
Pat: Tá, tá... mas, e se ele colar em
mim e vier no vácuo?
Deus: 10, 9, 8...
Pat: Péra, eu vou. Mas deixa eu me despedir dele?
Deus: 5 minutos.
...
Pat: Eu tentei, mas não teve jeito. Você vai permanecer aqui.
Diabo: Você falou para ele que já comi muito pão amassado e que me tornei apto para deixar o breu?
Pat: Falei.
Diabo: E ele?
Pat: Lamento, vou ter que subir sem você.
Diabo: Estou condenado para o resto da minha vida. Jamais serei feliz. Simples assim: Deus não quer.
Pat: Vitimização não ajuda em nada.
Diabo: Vitimização? A única pessoa que me aceita como eu sou está indo embora...
Pat: Meu lindo, adoraria continuar esse nosso diálogo, mas, infelizmente, tenho que ser rápida. Antes de sair quero e preciso lhe dizer o que estou sentindo: eu te amo. Amo de verdade. A nossa convivência me transformou e sou profundamente grata a você. Sei que lhe confundi bastante com a minha insegurança e meus surtos infantis, mas é que eu me pelava de medo de você. Medo que você me usasse, me enganasse, me manipulasse, me traísse, me rejeitasse, me humilhasse, me abandonasse. Sei lá, medo de muita coisa, medo de não saber como lidar com você. Só quando finalmente consegui dar risada das suas peraltices, foi que percebi o quanto você é especial. Vi que a sua rebeldia é igual a minha, é a exaustão de estar num mundo onde as pessoas insistem em nos tornar limpinhos e aceitáveis. Saiba que eu confio plenamente em você, porque mesmo que as nossas artimanhas e mentiras sejam distintas, você deseja o mesmo que eu: ser livre e ser amado pelo que você é.
Diabo: Vitimização? A única pessoa que me aceita como eu sou está indo embora...
Pat: Meu lindo, adoraria continuar esse nosso diálogo, mas, infelizmente, tenho que ser rápida. Antes de sair quero e preciso lhe dizer o que estou sentindo: eu te amo. Amo de verdade. A nossa convivência me transformou e sou profundamente grata a você. Sei que lhe confundi bastante com a minha insegurança e meus surtos infantis, mas é que eu me pelava de medo de você. Medo que você me usasse, me enganasse, me manipulasse, me traísse, me rejeitasse, me humilhasse, me abandonasse. Sei lá, medo de muita coisa, medo de não saber como lidar com você. Só quando finalmente consegui dar risada das suas peraltices, foi que percebi o quanto você é especial. Vi que a sua rebeldia é igual a minha, é a exaustão de estar num mundo onde as pessoas insistem em nos tornar limpinhos e aceitáveis. Saiba que eu confio plenamente em você, porque mesmo que as nossas artimanhas e mentiras sejam distintas, você deseja o mesmo que eu: ser livre e ser amado pelo que você é.
Diabo: Desde aquele dia em que você não me julgou pelos meus erros, eu te amei. Depois disso você me criticou algumas vezes, o que foi chato, mas inócuo... eu já te amava.
Pat: Nunca alcancei que você tinha amor por mim.
Diabo: ...
Pat: Vivia focada em me defender das suas diabruras. Ok, essa é a explicação superficial. A lá do fundo é que eu desejava tanto que você gostasse de mim da minha maneira que nem compreendia que você possuía o seu jeito próprio de amar.
Diabo: ...
Pat: Vivia focada em me defender das suas diabruras. Ok, essa é a explicação superficial. A lá do fundo é que eu desejava tanto que você gostasse de mim da minha maneira que nem compreendia que você possuía o seu jeito próprio de amar.
Diabo: Me dá um abraço?
Pat: Vim aqui por isso.
Diabo: Por favor, não se esqueça de mim.
Pat: Impossível. Deus disse que
você vai colocar outra pessoa no meu lugar...
Diabo: Provável.
Pat: Entendo. É difícil ficar só. Bem, vou nessa.
Diabo: Posso fazer um pedido?
Pat: Fala.
Diabo: Me dá mais um abraço?
Pat: Somente se você me der outro de volta...
....
Pat: Difícil me separar dele. Deus, você acredita em almas gêmeas?
Deus: Era só o que me faltava. Durante 4 anos, você me implorou dia e noite para lhe tirar daí, agora que está liberada, mudou de idéia?
Pat: Naoooooo, você me livre!
Deus: Então, deixe de lenga-lenga e venha logo.
Pat: O problema não é ele, é o lugar.
Deus: Esta teimosia só dificulta a sua volta.
Pat: Bem que o Campbell comentou que na hora "h" tem gente que recusa retornar. Nunca imaginei que seria uma delas.
Deus: Pare de filosofar que isso lhe confunde.
Pat: Bem que o Campbell comentou que na hora "h" tem gente que recusa retornar. Nunca imaginei que seria uma delas.
Deus: Pare de filosofar que isso lhe confunde.
Pat: É que o Diabo não é feio como pintam. É apenas um pobre coitado como eu.
Deus: Patrícia, vou refrescar a sua memória: você vai sair porque aprendeu a ver com o coração, sem ignorar os dados de realidade. Sabemos que você o ama além dos supostos defeitos dele ou justamente por causa de suas propaladas imperfeições. Muito bem. Entretanto, continuamos com o fato de que você foi liberada, ele não.
Pat: Por que não?
Deus: Isso é da conta dele.
Pat: Retornar sozinha é chato.
Deus: Pare de olhar pra trás. Lá na frente tem gente lhe esperando.
Deus: Patrícia, vou refrescar a sua memória: você vai sair porque aprendeu a ver com o coração, sem ignorar os dados de realidade. Sabemos que você o ama além dos supostos defeitos dele ou justamente por causa de suas propaladas imperfeições. Muito bem. Entretanto, continuamos com o fato de que você foi liberada, ele não.
Pat: Por que não?
Deus: Isso é da conta dele.
Pat: Retornar sozinha é chato.
Deus: Pare de olhar pra trás. Lá na frente tem gente lhe esperando.
Pat: Promete?
Deus: Pensei que você tivesse aprendido a confiar em mim.
Pat: Pode abrir a porta. Tô pronta.
Deus: Lembre-se: cuide da sua vida e deixe que os outros vivam as deles. Cada um tem que passar pelo seu próprio juízo final.
Pat: Pode deixar.
Deus: Lembre-se: cuide da sua vida e deixe que os outros vivam as deles. Cada um tem que passar pelo seu próprio juízo final.
Pat: Pode deixar.
Deus: Vou abrir. Mesmo que a luz seja intensa, não coloque óculos
escuros. Combinado?
Pat: Combinado.
Deus: Boa sorte. A sua história começa agora.
Saturday, October 05, 2013
Que a força esteja com você, Freud.
"A grande questão que nunca foi respondida, e que eu
ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma
feminina, é: o que querem as mulheres?" Freud
Meu estimado Sigmund,
Antes de mais nada, a minha reverência. O seu conceito sobre o Complexo de Édipo é insuperável, sem mencionar a sua descoberta sobre o inconsciente. Sou sua fã de carteirinha.
Na condição de mulher, resolvi responder a sua pergunta. Ou, pelo menos, tentar, já que a compreensão e a transmissão do mistério só acontece, de fato, no silêncio.
O que pretendem os buracos negros? Atrair
luz. Sendo assim, para descobrir o que querem as mulheres, basta coragem para entrar na mais completa e total escuridão. Parece algo assustador, a princípio, mas fique tranqüilo. Use o seu sabre
iluminado e você verá que a alma escura é bem menos ameaçadora do que parece.
Entretanto, gostaria de lembrá-lo do seguinte: se, ao explorar este território, o espírito não possuir iluminação própria, qualquer pesquisa, por mais vasta que seja, será em vão.
Sobre como iluminar a espada, não tenho a menor idéia. Segundo Obi-Wan Kenobi, um perito no assunto, só o homem é capaz de transferir esta sabedoria a outro homem. Ouvi falar que ele foi mentor de alguns exemplos de sucesso e talvez possa lhe passar informações mais acuradas a respeito.
Caso a minha resposta tenha sido menos elucidativa do que você esperava, perdoe-me, já que as palavras, invariavelmente, escapam ao feminino. Quem sabe, uma mente silenciosa lhe ajude mais do que eu.
Um grande abraço de sua admiradora,
Patrícia
P.S: Por favor, mande notícias. Ainda alimento a esperança de que você, em breve, irá jogar mais luz sobre a sexualidade feminina.
Saturday, September 07, 2013
A minha avó Sinhá
Hoje acordei lembrando dos ensinamentos da minha voinha Sinhá,
desde os tempos em que eu tomava banho de mangueira no quintal de sua casa e roubava
as balas que ficavam trancadas no armário da cozinha.
Foi a minha avó Sinhá que me ensinou a colocar a linha no buraco
da agulha, pregar botão, cortar o tecido, enfiar os alfinetes e criar vestidos de bonecas, os quais ela, aliás, costurava com muito carinho à semelhança dos meus próprios vestidos, também confeccionados por ela na sua máquina preta de pedal.
Acho que foi a minha mãe que me ensinou a rezar, não me recordo muito bem, mas foi a minha avó que me ensinou a ter fé. A
acreditar nas tais linhas tortas, que são certas.
Um dia qualquer, depois que me separei, sentei na cozinha do
meu apartamento, acendi uma vela, fiz de conta que a minha avó estava lá presente comigo e comecei a conversar com ela. Precisava revisitar a minha infância e tentar esclarecer questões que,
de alguma forma, permaneciam nebulosas. Ficamos horas papeando sobre inúmeras situações do passado. Fomos de A a Z.
De todas as "letras" que me incomodavam, tinha o "M" sobre o qual eu me questionava freqüentemente: por que os meus pais
mentiam pra mim? Não estou falando aqui de grandes segredos de família, mas de qualquer mentira, mesmo as bestas, como “Mãe, o que é motel?” Motel é um hotel longe. Pai, falta muito pra
chegar? Tá mais perto do que antes. Minha filha, vamos ali e voltamos já. E demoravam horrores para retornar. Como disse, coisa besta, figura de linguagem até, mas a minha alma de criança,
vai saber porque, se ressentia disso, se ressentia das mentiras de qualquer tipo contadas não
só pelos meus pais, mas por todos os pais em todas as eras da Humanidade.
Essa - talvez - bobagem que chateou a minha criança interior durante anos, foi resolvida por minha avó numa sentada. Pensei que ela fosse argumentar
que os meus pais queriam me proteger ou estavam com pressa ou qualquer uma dessas justificativas banais, que a mente pre-imagina. Entretanto, ela me disse: todas as
vezes que eles mentiram foi por um só motivo: porque queriam ser pais perfeitos
para você. Acreditavam que se fossem imperfeitos, não seriam amados. Fez tanto
sentido pra mim. Pra mim e para as minhas próprias mentiras cotidianas. Para a minha necessidade de tentar ser perfeita para que o outro me aceite e me ame.
No ano passado, viajei até o interior da Bahia e fui visitá-la na casa onde ela mora, a mesma desde que nasci.
- Vó, você faz um chá de cidreira pra mim?
- Vá lá no quintal pegar as folhas.
Fui no quintal e não encontrei as folhas - claro! É maluco isso, mas parece que é sempre mais gostoso quando uma avó acha as coisas pra gente, quando faz um chá que facilmente teríamos feito. Então, a minha avó levantou do sofá, foi até o quintal (eu atrás dela) e, sem nem pegar no corrimão, subiu as
escadas que levam até os vasos de plantas. Passos
firmes, corpo altivo. Na seqüência, desceu as escadas da mesma forma, foi até o fogão - que foi da minha mãe - e fez o chá. Começamos a beber
e engatamos uma conversa.
- Pat, quero morrer. Tá na hora.
- Não depende de você, vó.
- Mas Deus já podia me levar. Conversei com ele.
- Já disse, vó. Morte acontece. Não depende de reza, de
pedido, de querência.
- Vivi demais.
- Quem determina isso não é a Senhora, é o universo.
- 93 anos. É muito tempo, você não acha?
- Neste assunto eu não acho nada. Quem acha é Deus.
- Bem, eu tô pronta.
- Algumas pessoas não estão prontas e morrem do mesmo jeito.
- Passou da hora de eu ir.
- Vó, deixa de ser cabeça dura. Não se morre por decreto.
- Só avisei a Deus que, quando ele quiser, já pode vir me buscar.
- Quando ele quiser, ele vem.
É, hoje acordei pensando na minha avó, na sua voz clara quando, vira e mexe, falamos ao telefone, na sua audição impecável aos 94 anos. Nos seus
ensinamentos sobre a vida e no meu aprendizado com ela sobre a impossibilidade de se decretar um final ao que ainda pulsa.
Wednesday, July 03, 2013
À beira-mar
Na balaustrada do Porto da Barra, Pat e Murakami tomam água de coco e conversam. O relógio da calçada marca 16:16, do dia 3 de julho de 2013.
Pat: Eu sei que você sabe.
Murakami: É, agora você sabe que eu sei.Pat: Você esteve lá.
Murakami: (sorri)
Pat: Tantas perguntas pra lhe fazer sobre o que acontece depois.
Murakami: O seu conterrâneo Raul já sentenciou:
"perguntas não vão lhe mostrar".
Pat: Verdade. Questionamentos inúteis. Digressões infinitas.
Mas queria perguntar mesmo assim. Mania.
Murakami: Você quer perguntar ou controlar? Tentar prever os acontecimentos para não ser surpreendida pelo processo de nada serve.
Pat: O que eu quero mesmo é dormir e
acordar na minha vida nova, como aconteceu com você.
Murakami: Nem se preocupe, está escrito.
Pat: Mas pode ser já?
Murakami: Ansiedade só atrapalha.
Pat: É que demora demais.
Murakami: Faz parte. Digo, a exaustão.
Pat: Por que?
Murakami: Com tantas perguntas, nem parece que também esteve
lá.
Pat: Estive, mas ainda não completei a volta.
Murakami: As minhas respostas não vão solucionar a sua equação.
Pat: Estive, mas ainda não completei a volta.
Murakami: As minhas respostas não vão solucionar a sua equação.
Pat: Desculpe. Preciso parar com este meu cacoete de jornalista. Acho que o processo seria
mais fácil se eu fosse japonesa.
Murakami (rindo): Seria diferente. Contudo, a ordem dos acontecimentos não mudaria.
Pat: Provavelmente teria menos pressa.
Murakami: O tempo não existe, já descobrimos.
Pat: Na floresta não. Mas estou de volta à cidade.
Murakami: O pior você já superou, o redemoinho.
Pat: Fiquei aliviada quando vi que o ‘toilet
bowl’ estava no último capítulo do seu livro. Isso me deu a sensação de que estou na
reta final. Mas tenho dúvida se, ao sair, fechei a entrada com a pedra. Será que vou ter que retornar?
Murakami: Só entra no redemoinho quem abriu a pedra. Só sai,
quem fechou.
Pat: Ufa! Acho que ninguém conseguiria viver com aquela entrada aberta eternamente.
Murakami: Nem o Aladim. Abriu e fechou. Invariavelmente.
Pat: Mudando de assunto, mas continuando no mesmo, hoje é aniversário do Kafka.
Murakami: Grande Kafka: "Fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará
desmascarado".
Pat: Assim como você, ele encontrou uma metáfora incrível para descrever a revelação que presenciamos.
Murakami: Durma e a sua metáfora virá.
Pat: Perdoe-me por insistir, mas, estou mesmo cansada de passar grande parte do meu tempo no inconsciente profundo. É possível acelerar o retorno? Acordar mais rápido?
Murakami: Lamento, não há nada a ser feito.
Pat: Isso aqui tá parecendo Esperando Godot.
Murakami: "Nothing to be done", além de um mergulho no mar. Topa?
Pat (sorrindo): Bora. Mas antes, queria lhe dizer uma coisa.
Pat: Sim, menino corvo.
Pat: Isso aqui tá parecendo Esperando Godot.
Murakami: "Nothing to be done", além de um mergulho no mar. Topa?
Pat (sorrindo): Bora. Mas antes, queria lhe dizer uma coisa.
Murakami: Pois não.
Pat: Obrigada por ter escrito este livro. Você diminuiu a minha solidão.
Murakami sorri: Quando entrar na água, feche os olhos e pense com toda a sua
força na sua nova condição. Ainda que não esteja bem certa do que significa,
diga: sou livre.Pat: Sim, menino corvo.
Thursday, April 11, 2013
Outsiders
Sentados no sofá da sala de estar, Pat e Alex conversam há
cerca de dez minutos.
Pat: Que saco!
Alex: Não entendi
Pat: Sempre me comparam a alguém. Você é a bola da vez.
Alex: Eu morri.
Pat: E daí?
Alex: Você já se livrou de mim.
Pat: Os mártires dão mais trabalho do que os vivos.
Alex: O que você quer que eu faça?
Pat: Nada. Apenas me deixe continuar irritada.
Alex: Raiva só faz mal a quem sente.
Pat: Pois eu tô adorando.
Alex: Quer dizer que fizeram um filme sobre a minha vida?
Pat: Foi. Into the Wild, um blockbuster. Você ficou famoso.
Alex: Pena que não recebi os direitos autorais.
Pat: Mas você não pegou todo o dinheiro que tinha no banco e
fez uma doação?
Alex: Me arrependi depois.
Pat: Tá de brincadeira comigo. Logo você?
Alex: Sabe como é. No final da viagem, foi complicado ficar
sem grana.
Pat: Pensei que você fosse um andarilho desapegado...
Alex: Tudo em excesso cansa.
Pat: Já que você está aqui, vou aproveitar para tirar uma
dúvida.
Alex: Shoot.
Pat: Você ingeriu por engano aquela planta venenosa ou
queria mesmo morrer?
Alex: Queria morrer.
Pat: Imaginei.
Alex: Você também já pensou em morrer?
Pat: Várias vezes, mas sou covarde. Jamais teria coragem de
me matar.
Alex: Precisava ultrapassar o limite.
Pat: Sei como é. Teoricamente.
Alex: Se você não morreu, como é que estamos conversando?
Pat: I talk to dead people.
Alex: Pelo jeito, você gosta de cinema.
Pat: Muito. Sabia que foi o Eddie Vedder quem fez a trilha
do seu filme?
Alex: Do Pearl Jam?
Pat (balançando a cabeça afirmativamente): Ficou incrível. Quer
ouvir?
Alex: Claro!
Pat levanta e coloca o álbum para tocar.
Alex: Que aparelho é esse?
Pat: Ipod.
Alex: Fantástico!
Pat: A sua história está influenciando milhares de pessoas.
Alex: Estranho ficar famoso depois de morto, mas, fascinante
também.
Pat: Muitos homens iniciaram uma nova era na sua vida a
partir de um filme.
Alex: Ei, essa frase é do Thoreau!
Pat: É. (risos).
Alex: Só que ele disse: “a partir da leitura de um livro”.
Pat: Foi.
Alex: Life is a box of chocolates...
Pat: Agora você descambou para a banalidade.
Alex: Calma, só queria lhe impressionar. Cadê a sua compaixão?
Pat: Mandei para o Alasca. Desde quando morto se vitimiza?
Alex: Deve ser carência. Fiquei muito tempo completamente sozinho.
Pat: Percebi quando você escreveu “ happiness only real when
shared”. Correu o mundo, aliás.
Alex: Ficou para a posteridade?
Pat: Se bobear, mais do que os aforismos do Thoreau.
Alex: Conte mais.
Pat: Humm. Não sei. Ah! A atriz que fez a sua namorada ficou
bem famosa. Depois, ela foi protagonista num filme de vampiros e causou o maior
escândalo na vida real traindo o namorado.
Alex: Não namorei com ninguém.
Pat: Hollywood é fogo! Tem sempre que meter uma história de
amor no meio.
Alex: A sociedade se repete.
Pat (suspirando): Se até os dinossauros tinham suas convenções,
quem somos nós para querer fazer diferente?
Alex: Defina fazer diferente.
Pat: OK, a minha frase foi idiota. Acho que estou ficando
com sono.
Alex: Você me chama até aqui e depois de quinze minutos de
papo já quer dormir?
Pat: Pensei que na eternidade não houvesse nem tempo e nem
espaço.
Alex: Só o infindável retorno.
Pat: Nem na eternidade somos livres?
Alex: Não.
Pat: Me deu insônia só de pensar nisso.
Alex: Lamento chatear você com esse tipo de questão.
Pat: Quer dizer que nem quando morremos, somos livres?
Alex: Espero que você já esteja preparada para conhecer “a”
verdade: não morremos nunca. Se morrêssemos, não estaria conversando com você
agora.
Pat: Tô confusa. Você disse com todas as letras que estava
morto.
Alex: Segui a
sua linha de raciocínio para não lhe assustar logo de início. O fato é que estou
morto em uma dimensão. Mas vivo, em outra.
Pat: Depois dessa, preciso tomar um Lexotan.
Alex: Sorte sua. No lugar em que estou, as pessoas não podem
ingerir tranqüilizantes. São invariavelmente forçadas a aceitar o equilíbrio
dinâmico da natureza.
Pat: Você foi para o inferno?
Alex: Essa divisão entre céu e inferno é uma ficção.
Pat: Aonde você quer chegar com essa conversa ambivalente?
Ou unificadora, sei lá...
Alex: Foi você quem me chamou.
Pat: Só para desabafar. Jamais imaginei que você transformaria
o meu mau humor num diálogo existencial.
Alex: Sempre busquei a verdade.
Pat: Às 3 da manha?
Alex: Principalmente.
Pat: Você embaralhou a minha mente. Vamos começar do início:
você era totalmente natureba e agora defende medicamentos químicos?
Alex: As pessoas mudam. Às vezes.
Pat: Você mudou para pior, foi isso?
Alex: Se você tivesse se isolado no meio do nada como eu me
isolei, compreenderia verdades profundas, por um lado, mas, por outro, ficaria
mais flexível com as mentiras sociais.
Pat (olhando para o alto): Deus, você realmente escreve
certo por linhas tortas. (volta a olhar para Alex) Se você continuasse vivo, Into
the Wild 2 seria um fracasso. Não quero nem imaginar você voltando da sua emblemática
viagem e se entupindo de remédio. Quem sabe até, virando um consumista
tecnológico compulsivo, indo trabalhar
de terno Armani no agressivo mundo corporativo ou assumindo a postura de um empreendedor hardcore.
Natureza, então, só algumas samambaias em seu apartamento numa megalópole bem
poluída. Será que seus fãs agüentariam tamanha flexibilidade?
Alex: Veja bem, não disse que tomaria remédio. Disse que me tornei mais tolerante com a sociedade. Fiquei aleijado, passei fome e frio. A
partir daí, compreendi a importância de se possuir uma certa estrutura
material. Foi um movimento pendular.
Pat: Vou pendular até a cozinha e pegar um sorvete.
Alex (em voz alta): Interessante. As mulheres continuam com
o mesmo padrão de comportamento.
Pat (gritando da cozinha): Qual?
Alex: Distorcendo o que os homens dizem.
Pat (gritando da cozinha): Você gosta de sorvete de
chocolate?
Alex (em voz alta): Não, obrigada. Estou sem fome.
Pat (voltando): Feliz em saber que você ficou mais tolerante
também com as mulheres.
Alex: Considero insensível de sua parte não respeitar a minha
mudança.
Pat: Desculpe. Você era um modelo para mim. Uma inspiração.
Alex: Só porque estou mais condescendente com o mundo,
deixei de ser?
Pat: Vou ter que me acostumar com um Alex menos
cinematográfico, só isso. Meu estoque de perguntas acabou. Sua vez.
Alex: Não tenho dúvidas. Só curiosidades.
Pat: Comentaram comigo que você era louco. Agora percebo.
Alex: Porque sou curioso?
Pat: Não. Porque você não tem dúvidas. Pode alguém nao ter
dúvidas?
Alex: As que transcendem.
Pat: Tá parecendo papo de guia espiritual. Era essa a sua
intenção quando você queimou a sua carteira de identidade? Virar um guru?
Alex: Já que você insiste em colocar um rótulo em mim,
prefiro que continue me chamando de louco.
Pat (reflete em voz alta): Muito bacana. Estou conversando
com o Alex Supertramp, que, na verdade, não morreu. Ou melhor, morreu, mas continua
vivinho da silva em uma dimensão qualquer no beleléu. Ele me confidenciou que
não bate bem da cabeça e que se tivesse sobrevivido se encaixaria feliz na
sociedade. (virando para o Alex): Quando eu contar isso para os meus amigos,
adivinha o que eles vão achar de mim?
Alex: O que já acham.
Pat: Que eu sou louca.
Alex: Não, que você é exagerada.
Os dois riem.
Pat: Sabia que temos quase a mesma idade. Ou melhor,
tínhamos, já que fantasma não faz aniversário. Ou faz?
Alex: Você mesma afirmou que no plano perpétuo não existe
quinze minutos. A imortalidade é, obviamente, atemporal.
Pat (bocejando): Entendo, quer dizer, acho que estou
começando a entender, mesmo que talvez não acredite. Bem, mas como aqui o tempo existe, tá na hora de você
ir para casa.
Alex: Não tenho mais casa. Lembra?
Pat: É mesmo. Que tal ir visitar o Sean Penn? Ele vai adorar
conhecer você pessoalmente.
Alex: Por que o Sean Penn?
Pat: Foi ele quem dirigiu o filme.
Alex: O Sean Penn?
Pat: Anrã. Vou tomar um banho e dormir.
Alex: Já? Nada é tão útil ao homem como a resolução de não
ter pressa.
Pat: Ei, essa frase é do Thoreau!
Alex: É. (risos). Mais sorvete?
Pat : zzzzzzzzzzzzz
Friday, March 29, 2013
A arte do encontro
Por volta do meio-dia, estava na praça da Vila do Vale do
Capão, quando um desconhecido me viu e caminhou na minha direção. Neste dia, o
local estava com um movimento grande de pessoas.
Desconhecido: Nos conocíamos de antes?
Balancei a cabeça negativamente, visivelmente emocionada.
Desconhecido: Es que me parece un deja vù.
Pat: Preciso segurar a sua mão para poder lhe dizer isso:
muito obrigada! Você me viu! Você pode imaginar a alegria que eu estou
sentindo? Agora eu existo!
Desconhecido: Estás bien?
Pat: Eu não sou louca. Sei que está parecendo, mas não sou.
Desconhecido: Non, yo pensé que te conocía...
Pat: Deixa eu lhe explicar. Durante quase 30 dias, fiquei
num chalé no alto da montanha, meditando sozinha, sem ouvir música, ler,
escrever, acessar a internet, usar o celular ou conversar com pessoas. Hoje,
pela primeira vez, resolvi sair para dar uma volta na vila.
Desconhecido: En serio?
Pat: Sim. A minha cabeça flutuava que nem um balão inflado
com gás hélio preso apenas a um fio de nylon. Ficava balançando de lá pra cá e
daqui pra lá. Estava tão solta, que tive que segurá-la com as mãos para que
parasse quieta no pescoço.
Ele me olhava com curiosidade.
Pat: Comecei a andar pela rua, na esperança de que alguma
energia chegasse na parte de cima do meu corpo. Dei uma volta ao redor da
igreja e, olhando para as pessoas que passavam por mim, tive a sensação de que
ninguém me via. Percebi que eu tinha me tornado invisível. Foi aterrorizante.
Tive medo de ficar assim para o resto da vida.
Desconhecido: Non te entiendo.
Pat: Juro que não usei droga nenhuma, não bebi álcool, não
fumei, não tomei Daime. Nada, nada, foi só oxigênio.
Ainda desordenada, senti as lágrimas rolarem no meu rosto.
Abracei o meu mais novo velho amigo de infância.
Pat:. Estava me sentindo inexistente no meio das pessoas e
você me enxergou.
Desconhecido: También para mi fue un poco raro.
Pat: Sei que dizendo isso parece que eu tenho um parafuso a
menos, mas acredite, sou uma pessoa íntegra e de bom coração. Acho que meditei
demais.
Desconhecido: Qué tal una cerveja?
Odeio cerveja, mas os paradoxos da vida se revelam em
momentos de pânico. Aceitei o convite com alegria. Enquanto caminhávamos na
direção do bar, ele começou a me fazer perguntas:
Desconhecido: Por que resolviste meditar por tanto tiempo?
Pat: Eu não sei. Melhor, sei, mas acho que é uma história um
pouco longa para explicar.
Desconhecido: Segura?
Pat: Vou tentar, caso contrário você não vai acreditar que
eu sou normal. No ano passado, fiquei dez dias em silêncio absoluto num retiro
chamado Vipassana, já ouviu falar?
Negou.
Pat: Bem, dizem que foi a técnica que o Buda utilizou para
se iluminar. Mas não fiz isso para me iluminar, de jeito nenhum. Só achei que
se viesse sozinha para cá e ficasse em silêncio por um período ainda mais
longo, seria bom pra mim. Fantasiei que, por alguma intervenção divina, poderia
acessar a minha missão de vida. Eu tenho esse sonho... ou tinha. Agora nem sei
mais. Estou desiludida.
Desconhecido: Pero ha valido la pena?
Pat: Nao sei. Talvez este seja o começo de uma vida real.
A essa altura, já estávamos no boteco Flamboyant, ao lado de
um supermercado homônimo.
Pat: Me conte de você.
Desconhecido: Voy a coger la cerveza.
Ele voltou e encheu o meu copo. Saboreei um gole e olhando
maravilhada para o líquido amarelado, disse alto:
Pat: Cerveja. Cerve-ja. Cer-ve-ja.
Mesa, cadeira, copo, cerveja. Era como se estivesse
vivenciando cada objeto pela primeira vez. Será que eu renasci? Será que foi
este o resultado da minha meditação? Estou num mundo novo e admirável?
Bebi a cerveja devagar. Voltei a olhar para aquela pessoa
generosa. Quanta beleza havia nele. Era comovente:
Pat: Que pessoa bonita que você é.
Desconhecido: Gracias. Tu en que trabajas?
Pat: Trabalhava como executiva em uma empresa, mas resolvi
largar tudo, há um tempo atrás.
Desconhecido: Dónde hás trabajado?
Pat: No Google.
Desconhecido: En Estados Unidos?
Pat: Em São Paulo.
Desconhecido: Y qué haces ahora?
Pat: Estou aprendendo a não fazer nada.
Desconhecido (rindo): Y estas indo bién?
Pat: Mais ou menos. As distrações me desviam do foco.
Peguei o seu chapéu preto, estilo cowboy, que estava em cima
da mesa de metal e coloquei na minha cabeça. Senti o peso do feltro. Um limite
concreto. Um alento.
Pat: O meu nome é Patrícia. Como você se chama? De onde você
é?
Desconhecido: Me llamo Salvador. Salvador Dali. Soy espanol,
de Cataluna, pero vivo en Madrid. He venido al Vale do Capon a buscar
inspiración.
Pat: Veio ao lugar certo. Você faz o quê?
Salvador Dali: A los seis años quería ser cocinero. A los
siete, Napoleón. Mi ambición no ha hecho más que crecer; ahora sólo quiero ser
Salvador Dalí y nada más. Por otra parte, esto es muy difícil, ya que, a medida
que me acerco a Salvador Dalí, él se aleja de mi.
Pat (risos): Uma contradição diária.
Salvador Dali: Que
crea vida.
Sorri.
Pat: Mas, então você entendeu quando eu disse que estou
aprendendo a não fazer nada.
Salvador Dali: Si, por supuesto. Pero pienso que el tiempo
es una de las pocas cosas importantes que nos quedan.
Pat: O tempo e o silêncio. Geradores de estrelas.
Salvador Dali: Tan poco de lo que puede ocurrir, ocurre.
Suspirei.
Pat: Você está
viajando sozinho?
Salvador Dali: Nunca estoy solo. Tengo la costumbre de estar
siempre con Salvador Dalí. Créame, eso es una fiesta permanente.
Rimos os dois.
Salvador me contou longamente sobre a sua vida, suas viagens
exóticas e suas incursões em processos inconscientes. Disse-me que era pintor,
mas que adorava escrever. Revelou que passava grande parte do seu tempo captando
as diferentes dimensões da realidade e que um dos objetivos da sua visita
àquela região era participar das práticas xamânicas e beber ayuasca.
Enquanto conversávamos, um frisson inusitado me aconteceu:
olhei nos olhos dele e me vi inteira dentro de sua íris. Não estou utilizando
aquela boa, mas batida metáfora do espelho. Estou relatando uma experiência
verídica. Só quem já passou por isso, vai conseguir acreditar em mim. Um estado
puro de atenção que lhe transporta para uma abertura plena. Via o outro e no
outro, me via. Era sutil, quem sabe até, metafísico, mas real. Eu estava dentro
dos olhos de Salvador Dali.
Dizem que o ruim é o excesso do bom. O que era
transcendente, virou opressivo. Como são afrontativos os olhos que, sem trégua,
mostram quem você é! Busquei ao meu redor um olhar que pudesse fundir com o meu.
Sem sucesso. O incômodo foi crescendo, na mesma proporção em que recobrava o
juízo critico: já conhecia aquele bar, a cerveja era amarga e a prática
meditativa não contempla objetivos. Mas sim, a minha cabeça continuava se
movimentando involuntariamente e Salvador Dali era, de fato, um ser autêntico e
simpático. Entretanto, por mais divertido que ele fosse, ver a minha sombra em
seus olhos ligeiramente arregalados me trazia um desconforto que eu não estava
mais conseguindo suportar.
Pat: Acho que vou indo.
Salvador Dali: Quedate más un poco. Ya comiste? Me gustaría
pedir unas coxinhas. Son ricas. En Espana no hay.
Pat: Obrigada, você é muito gentil, mas preciso ir.
Salvador Dali: Por que?
Expliquei para ele a experiência do meu corpo dentro do seu
olhar. Ele, evidentemente, não sentiu, nem de longe, o mesmo, mas adorou o que
denominou de alucinação projetiva.
Pat: Agora vou mesmo.
Salvador Dali: Me quedo hasta domingo. Si quieres, podemos
hacer unas sendas. Eres
bienvenida.
Agradeci, tirei o chapéu e me despedi, anotando o meu e-mail
em sua agenda.
Fui me afastando lentamente, enquanto tentava conectar a
experiência com o nome dele. Terá sido um sinal? Qual? Não! Chega de achar que
todos os encontros estão plasmados no inconsciente coletivo e que possuem um
significado oculto. Um encontro é apenas um encontro. Um acontecimento fortuito
entre duas pessoas e sem razão secreta. Tomei uma cerveja com Salva-dor D-ali.
Foi só isso.
Wednesday, March 20, 2013
Ponto para Exu
“Coitada da mulher que cai
No canto de Exu
Sonhadora!
Coitada da mulher que vai
Atrás de mandinga de amor.”
Nestes últimos anos, ninguém buliu tanto comigo quanto Exu.
E olha que baixou foi coisa aqui no meu congá. Deu Ogum, Oxossi, Xangô. Mas
que nem Exu, ah nega, que nem Exu não tem. Pelejei noites a fio com o sabido e ainda não sei se foi por
uma causa nobre ou vã. Deus há um dia de me revelar. Mas fato é que perdi as
contas de quantas vezes esse provocador me tirou do sério. Sombra minha,
espelho meu, inconsciente de todos nós. Exu, sai daí danado! Claro, Exu nunca
saiu. Por obra do destino, ou por desatino meu, continuou me mostrando os
embaraços no que em mim se pode chamar de estranheza humana.
Felizmente sempre tive cabeça boa e forte para as
intempéries desta sociedade desgovernada. Mesmo assim, não foi suficiente para
teimar contra Exu. Verdade seja dita: irremediável foi o dia em que nos
cruzamos. As más línguas martelam que ele é o diabo em forma de gente, mas isso
é coisa de quem não alcança as sutilezas entre o céu e a terra. O rei das
contradições é um conhecedor nato do mistério que insistimos em maltratar e até
esconder. A sua força é vigorosa e, se for rejeitado, acredite, retorna só para
se vingar.
Perdi muitas noites bolando planos infalíveis que me
protegessem dos seus poderes sobrenaturais. Valei-me, nosso Senhor! Livrai-me
de Exu! Acendi vela, orei para os santos de todas as religiões. Que nada! No
outro dia, Exu me mandava torpedo, futucava no meu blog, prometia união eterna.
E o pecado voltava a percorrer o meu corpo. Esquecia de todas as suas
peraltices e me rendia ao paladar doce de sua palavra.
Apesar da nossa convivência tumultuada, preciso confessar:
em todos esses anos, o que teria sido de mim sem Exu? Um psicólogo das almas,
um intelectual do povo, um ativista revolucionário. E para quem pensa que ele
só se ocupa do profano, redondamente se engana. Exu é um profundo entendedor
das letras e fez questão de se
doutorar na PUC, que é universidade com verve gauche.
Uma amiga de longa data me confidenciou: "Pomba-gira,
Exu ama você". Não acreditei. Exu é festeiro e não se prende a ninguém. E
se comigo se encantou, pior para a minha pessoa, pois quanto mais ele ama, mais
faz o outro sofrer. Duvida? Eu tenho provas.
Certa feita, chamei Exu para jantar aqui em casa. Ele trouxe
flores, vinho, juras de amor. Êta dia feliz! Fiz uma comida daquelas e ele se
fartou: fricassé de soja, batatas
gratinadas, salada. Sim, pasme, Exu é vegetariano e aprecia cozinha refinada.
No outro dia, entretanto, não se fez de rogado. Desapareceu sem deixar pista e
nem rastro. Meses depois, voltou sorrateiro, alegando uma viagem súbita a
terras sábias e desconhecidas. Fora estudar segredos com Don Juan e
Castaneda. Colocou inveja e
saudade nos que ficaram. Em mim, que dele se faltou.
Sobre seus movimentos, há sempre muitas histórias, pois se
tem uma coisa que Exu gosta é de circular no mundo, ir sem prenúncio e voltar
sem aviso. Até no Japão, o irrequieto já morou! Alguns contam que se deu bem
com a religião oriental, amancebando candomblé com budismo. Já se viu tamanha artimanha? É que ele
dá nó em pingo d’água, juntando o que ninguém junta, mesmo que separe depois.
De volta ao Brasil e aos estudos acadêmicos, se engraçou com
a cabocla Jurema. Aí o caldo engrossou. Lembro bem da divina. Andava nua e altiva,
sem nada para esconder. Mulher de espírito livre, centrada, pisava firme e
macio no chão de um jeito que, mesmo o cimento, parecia terra batida. Exu
gastou foi latim com a moça, mas não tinha discurso de direita ou de esquerda
que pudesse catequizar a danada.
Na época, tive ciúmes da índia, por se manter no eixo e
resistir de forma valente ao sacolejo de Exu. Porém, reconheço humildemente que
nasci na Bahia, com defeitos inalienáveis de fabricação. Um bom molejo sempre
me pegou de jeito e a magia certeira comumente me atingiu.
Ouvi relato de fonte segura, que Exu mandou enterrar a minha
calcinha na praia de Itapuã. Já fiz busca minuciosa na areia, promessa para
Iemanjá, mas nada dessa bendita aparecer. Foi trabalho de caso pensado, feito
com astúcia ao entardecer e sob a orientação do Pai Pablo, um baiano-argentino,
que realiza ajuntamentos espirituais tão emaranhados que nem ebó desamarra.
Depois de anos labutando com Exu, acendendo incenso de
fedegoso, tomando banhos fortes de descarrego e orando para oxalá, aceitei que
é impossível estabelecer regras de sacudimento com esse homem. Exu gosta mesmo
é de operar na imprevisibilidade.
Ah, mas um colo, um dengo, um cafuné, isso sim funciona bem.
Só mesmo esse tipo de mandinga para suavizar o Mestre da Transformação. Contudo
não pensem que aprendi esse feitiço sozinha. Essa sabedoria me foi ensinada
pela Dona Maria Quitéria, uma senhora velha e digna, que me viu rezando aflita
na Igreja do Bonfim e prontamente me aconselhou: paciência, minha filha. Muita paciência com Exu.
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