Como superar séculos
e séculos de humilhação do feminino? Dentro dos esquemas da sociedade patriarcal, impossível. Sendo assim, minha linda e querida Madona Negra, por favor, pare de esperar pelo reconhecimento ou pela carta de alforria. Os senhores de engenho jamais lhe darão esse gostinho. Apenas abra os olhos e saia do cativeiro. Esqueça as regras e os discursos repetidos de que você não vale nada. Eu sei que é difícil, mas junte seus trapos e, nem que seja se arrastando, vá embora. Comece a sua vida no vetor zero. Talvez você seja incompreendida, isolada, criticada, mas será livre. E quem sabe, livre, encontrará o seu caminho e seres também livres como você.
Sunday, November 10, 2013
Sobre ser atriz
O universo é
incrível, sempre dizendo pra mim: vire uma atriz. E eu desviando, querendo ser
dramaturga, diretora de teatro, qualquer outra coisa, quem sabe cozinheira? Mas
ele me mandando a mesma mensagem: vire atriz. Teimosa, continuei
discutindo: olha só, galera aí de cima, eu não tenho talento pra isso. Além do mais, dá muito trabalho e sou preguiçosa.
De tanto fritar a
cabeça com essa questão, ontem finalmente entendi o recado. Você acha que o
universo perderia tempo dizendo para mim que "profissão" eu deveria
ter? O universo não conhece esse conceito de profissão. Quem criou isso foi o
capitalismo. Ou quem sabe os gregos, que inventaram tudo. O cosmos, entretanto, não tá
nem aí para o tipo de trabalho que cada um escolhe.
O tempo todo o universo só queria me dizer: vire uma
atriz, vire uma estrela. Porque a
estrela é aquela que possui luz própria. Brilho próprio. É só essa a mensagem
que o universo queria me dar: tenha luz própria. É isso que é ser atriz.
"Não, meu
nego, não traia nunca
Essa força que
mora em seu coração
No coração da
mata gente quer prosseguir
Quer durar, quer
crescer,
Gente quer luzir
Gente espelho de
estrelas,
Reflexo do
esplendor
Se as estrelas
são tantas,
Só mesmo o
amor"
Saturday, November 09, 2013
Sem projeção
Yang, queria olhar nos
seus olhos, mas isso já não é mais possível porque agora você sou eu.
Monday, November 04, 2013
Tuesday, October 22, 2013
De onde eu vim?
“Tengo: So,
then, who is my father?
Tengo’s Father:
Just a vacuum. Your mother joined her body with a vacuum and gave birth to you.
I filled in that vacuum”
Murakami, emocionante ler o seu livro 1Q84 e constatar que você viu o mesmo que eu. É
incrível, né? O Yin pare o Yang, seu filho. Daí, vem o Yang e se acopla ao Yin. Já
lemos e ouvimos várias vezes essa história, mas não entendemos: Maria fica grávida de seu filho Jesus e só depois é que vem José. Uma metáfora, é claro. Por isso é que o feminino será sempre a prostituta-santa, alma flechada que vira carne. Por isso é que o masculino é Pai-Filho-Espírito Santo. Como você mesmo disse: "If you can’t understand it without
an explanation, you can’t understand it with an explanation.” Representação alguma
será suficiente para mostrar o que precisa ser visto sem olhos. Um alívio saber que não estou sozinha nas minhas loucuras.
Wednesday, October 16, 2013
Tuesday, October 15, 2013
Sunday, October 13, 2013
Todo menino é um rei
Eu sou você,
menino-mendigo, sempre orfão, sem casa e sem rumo, dizendo: me acolhe.
Monday, October 07, 2013
Saturday, October 05, 2013
Que a força esteja com você, Freud.
"A grande questão que nunca foi respondida, e que eu
ainda não fui capaz de responder, apesar de 30 anos de pesquisa sobre a alma
feminina, é: o que querem as mulheres?" Freud
Meu estimado Sigmund,
Antes de mais nada, a minha reverência. O seu conceito sobre o Complexo de Édipo é insuperável, sem mencionar a sua descoberta sobre o inconsciente. Sou sua fã de carteirinha.
Na condição de mulher, resolvi responder a sua pergunta. Ou, pelo menos, tentar, já que a compreensão e a transmissão do mistério só acontece, de fato, no silêncio.
O que pretendem os buracos negros? Atrair
luz. Sendo assim, para descobrir o que querem as mulheres, basta coragem para entrar na mais completa e total escuridão. Parece algo assustador, a princípio, mas fique tranqüilo. Use o seu sabre
iluminado e você verá que a alma escura é bem menos ameaçadora do que parece.
Entretanto, gostaria de lembrá-lo do seguinte: se, ao explorar este território, o espírito não possuir iluminação própria, qualquer pesquisa, por mais vasta que seja, será em vão.
Sobre como iluminar a espada, não tenho a menor idéia. Segundo Obi-Wan Kenobi, um perito no assunto, só o homem é capaz de transferir esta sabedoria a outro homem. Ouvi falar que ele foi mentor de alguns exemplos de sucesso e talvez possa lhe passar informações mais acuradas a respeito.
Caso a minha resposta tenha sido menos elucidativa do que você esperava, perdoe-me, já que as palavras, invariavelmente, escapam ao feminino. Quem sabe, uma mente silenciosa lhe ajude mais do que eu.
Um grande abraço de sua admiradora,
Patrícia
P.S: Por favor, mande notícias. Ainda alimento a esperança de que você, em breve, irá jogar mais luz sobre a sexualidade feminina.
Friday, September 27, 2013
Reverência
Assim como a
minha alma, o seu espírito é insubjugável. A você, Yang meu, eu me entrego livremente.
Thursday, September 26, 2013
Having fun with tricksters
“Do I really look like a guy with a plan? You know, I just…
do things The mob has plans, the cops have plans, Gordon’s got plans. You know,
they’re schemers. Schemers trying to control their little worlds. I’m not a
schemer. I try to show the schemers how pathetic their attempts to control
things really are.
Introduce a little anarchy. Upset the established order, and
everything becomes chaos. I’m an agent of chaos. Oh, and you know the thing
about chaos? It’s fair!”
Sunday, September 22, 2013
Seqüência inviolável
Da escuridão silenciosa nasce a palavra. É o feminino parindo o masculino mais uma vez.
Saturday, September 21, 2013
Thursday, September 19, 2013
Sangue Tupi
Ah, Jurema, depois que te conheci, passo os dias esperando tu. E vem Iansã, e vem Yemanjá e Pomba Gira e Obá e Oxum, mas, não
tem jeito, eu quero mesmo é tu. É verdade que elas são lindas, nem sou louca de
negar, mas são partes. Só tu, Jurema, é inteira. Elas usam títulos e se dizem
rainhas porque desconhecem a força do nome mulher. Mas tu, Jurema, é sabida de ti e ser Jurema te basta. Do teu corpo terra, do teu corpo barro, do teu corpo
Gaia, brota a seiva, a selva. É nele que corre o rio. É na tua respiração que a
liberdade dança. É da tua vagina que se ouve o som: eu sou.
Monday, September 16, 2013
Criação
O Yang aprende a arte da coragem viajando no espaço e o Yin aprende a virtude da paciência esperando e relaxando no tempo. Até que YinYang, TempoEspaço, RepousoMovimento, MusaHerói se fundem e percebem que são um só. Foi assim, é assim e vai continuar sendo assim a jornada do espermatozóide ao encontro do óvulo.
Monday, September 09, 2013
Sunday, September 08, 2013
Quem sabe, um dia, os mortos vão se cansar de mim
"Aquele que reconheceu as exigências dos mortos baniu sua
feiúra do outro mundo. Ele não se impõe forçosamente sobre ninguém, e vive
sozinho na beleza e fala com os mortos. Mas chega o dia quando as demandas dos
mortos também são satisfeitas." Jung, Livro Vermelho
Saturday, September 07, 2013
A minha avó Sinhá
Hoje acordei lembrando dos ensinamentos da minha voinha Sinhá,
desde os tempos em que eu tomava banho de mangueira no quintal de sua casa e roubava
as balas que ficavam trancadas no armário da cozinha.
Foi a minha avó Sinhá que me ensinou a colocar a linha no buraco
da agulha, pregar botão, cortar o tecido, enfiar os alfinetes e criar vestidos de bonecas, os quais ela, aliás, costurava com muito carinho à semelhança dos meus próprios vestidos, também confeccionados por ela na sua máquina preta de pedal.
Acho que foi a minha mãe que me ensinou a rezar, não me recordo muito bem, mas foi a minha avó que me ensinou a ter fé. A
acreditar nas tais linhas tortas, que são certas.
Um dia qualquer, depois que me separei, sentei na cozinha do
meu apartamento, acendi uma vela, fiz de conta que a minha avó estava lá presente comigo e comecei a conversar com ela. Precisava revisitar a minha infância e tentar esclarecer questões que,
de alguma forma, permaneciam nebulosas. Ficamos horas papeando sobre inúmeras situações do passado. Fomos de A a Z.
De todas as "letras" que me incomodavam, tinha o "M" sobre o qual eu me questionava freqüentemente: por que os meus pais
mentiam pra mim? Não estou falando aqui de grandes segredos de família, mas de qualquer mentira, mesmo as bestas, como “Mãe, o que é motel?” Motel é um hotel longe. Pai, falta muito pra
chegar? Tá mais perto do que antes. Minha filha, vamos ali e voltamos já. E demoravam horrores para retornar. Como disse, coisa besta, figura de linguagem até, mas a minha alma de criança,
vai saber porque, se ressentia disso, se ressentia das mentiras de qualquer tipo contadas não
só pelos meus pais, mas por todos os pais em todas as eras da Humanidade.
Essa - talvez - bobagem que chateou a minha criança interior durante anos, foi resolvida por minha avó numa sentada. Pensei que ela fosse argumentar
que os meus pais queriam me proteger ou estavam com pressa ou qualquer uma dessas justificativas banais, que a mente pre-imagina. Entretanto, ela me disse: todas as
vezes que eles mentiram foi por um só motivo: porque queriam ser pais perfeitos
para você. Acreditavam que se fossem imperfeitos, não seriam amados. Fez tanto
sentido pra mim. Pra mim e para as minhas próprias mentiras cotidianas. Para a minha necessidade de tentar ser perfeita para que o outro me aceite e me ame.
No ano passado, viajei até o interior da Bahia e fui visitá-la na casa onde ela mora, a mesma desde que nasci.
- Vó, você faz um chá de cidreira pra mim?
- Vá lá no quintal pegar as folhas.
Fui no quintal e não encontrei as folhas - claro! É maluco isso, mas parece que é sempre mais gostoso quando uma avó acha as coisas pra gente, quando faz um chá que facilmente teríamos feito. Então, a minha avó levantou do sofá, foi até o quintal (eu atrás dela) e, sem nem pegar no corrimão, subiu as
escadas que levam até os vasos de plantas. Passos
firmes, corpo altivo. Na seqüência, desceu as escadas da mesma forma, foi até o fogão - que foi da minha mãe - e fez o chá. Começamos a beber
e engatamos uma conversa.
- Pat, quero morrer. Tá na hora.
- Não depende de você, vó.
- Mas Deus já podia me levar. Conversei com ele.
- Já disse, vó. Morte acontece. Não depende de reza, de
pedido, de querência.
- Vivi demais.
- Quem determina isso não é a Senhora, é o universo.
- 93 anos. É muito tempo, você não acha?
- Neste assunto eu não acho nada. Quem acha é Deus.
- Bem, eu tô pronta.
- Algumas pessoas não estão prontas e morrem do mesmo jeito.
- Passou da hora de eu ir.
- Vó, deixa de ser cabeça dura. Não se morre por decreto.
- Só avisei a Deus que, quando ele quiser, já pode vir me buscar.
- Quando ele quiser, ele vem.
É, hoje acordei pensando na minha avó, na sua voz clara quando, vira e mexe, falamos ao telefone, na sua audição impecável aos 94 anos. Nos seus
ensinamentos sobre a vida e no meu aprendizado com ela sobre a impossibilidade de se decretar um final ao que ainda pulsa.
Friday, September 06, 2013
Thursday, September 05, 2013
A única forma de sair do labirinto é através do amor
A minha repetição se repetiu: o apego ao poder. E eu me perdi no
labirinto mais uma vez. Êta sombra louca, sombra rebelde, sombra minha, você ainda não entendeu? Todos os sábios, de todos os tempos já sentenciaram: só e somente só o amor. E sim, eu te amo.
Tuesday, August 27, 2013
Wednesday, August 21, 2013
Thursday, August 15, 2013
Existem as índias e existe você, Jurema.
Ah, minha cabocla, se eu pudesse, todos os dias eu seria
possuída pelo seu espírito e o meu corpo seria seu. Sabedora de mim, jorraria
leveza e liberdade. O meu útero, inseparável do útero mundo, distribuiria quentura e acolheria o homem guerreiro com a tranqüilidade que só
o aconchego consegue ter.
Tuesday, August 13, 2013
Tuesday, July 30, 2013
Wednesday, July 03, 2013
À beira-mar
Na balaustrada do Porto da Barra, Pat e Murakami tomam água de coco e conversam. O relógio da calçada marca 16:16, do dia 3 de julho de 2013.
Pat: Eu sei que você sabe.
Murakami: É, agora você sabe que eu sei.Pat: Você esteve lá.
Murakami: (sorri)
Pat: Tantas perguntas pra lhe fazer sobre o que acontece depois.
Murakami: O seu conterrâneo Raul já sentenciou:
"perguntas não vão lhe mostrar".
Pat: Verdade. Questionamentos inúteis. Digressões infinitas.
Mas queria perguntar mesmo assim. Mania.
Murakami: Você quer perguntar ou controlar? Tentar prever os acontecimentos para não ser surpreendida pelo processo de nada serve.
Pat: O que eu quero mesmo é dormir e
acordar na minha vida nova, como aconteceu com você.
Murakami: Nem se preocupe, está escrito.
Pat: Mas pode ser já?
Murakami: Ansiedade só atrapalha.
Pat: É que demora demais.
Murakami: Faz parte. Digo, a exaustão.
Pat: Por que?
Murakami: Com tantas perguntas, nem parece que também esteve
lá.
Pat: Estive, mas ainda não completei a volta.
Murakami: As minhas respostas não vão solucionar a sua equação.
Pat: Estive, mas ainda não completei a volta.
Murakami: As minhas respostas não vão solucionar a sua equação.
Pat: Desculpe. Preciso parar com este meu cacoete de jornalista. Acho que o processo seria
mais fácil se eu fosse japonesa.
Murakami (rindo): Seria diferente. Contudo, a ordem dos acontecimentos não mudaria.
Pat: Provavelmente teria menos pressa.
Murakami: O tempo não existe, já descobrimos.
Pat: Na floresta não. Mas estou de volta à cidade.
Murakami: O pior você já superou, o redemoinho.
Pat: Fiquei aliviada quando vi que o ‘toilet
bowl’ estava no último capítulo do seu livro. Isso me deu a sensação de que estou na
reta final. Mas tenho dúvida se, ao sair, fechei a entrada com a pedra. Será que vou ter que retornar?
Murakami: Só entra no redemoinho quem abriu a pedra. Só sai,
quem fechou.
Pat: Ufa! Acho que ninguém conseguiria viver com aquela entrada aberta eternamente.
Murakami: Nem o Aladim. Abriu e fechou. Invariavelmente.
Pat: Mudando de assunto, mas continuando no mesmo, hoje é aniversário do Kafka.
Murakami: Grande Kafka: "Fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará
desmascarado".
Pat: Assim como você, ele encontrou uma metáfora incrível para descrever a revelação que presenciamos.
Murakami: Durma e a sua metáfora virá.
Pat: Perdoe-me por insistir, mas, estou mesmo cansada de passar grande parte do meu tempo no inconsciente profundo. É possível acelerar o retorno? Acordar mais rápido?
Murakami: Lamento, não há nada a ser feito.
Pat: Isso aqui tá parecendo Esperando Godot.
Murakami: "Nothing to be done", além de um mergulho no mar. Topa?
Pat (sorrindo): Bora. Mas antes, queria lhe dizer uma coisa.
Pat: Sim, menino corvo.
Pat: Isso aqui tá parecendo Esperando Godot.
Murakami: "Nothing to be done", além de um mergulho no mar. Topa?
Pat (sorrindo): Bora. Mas antes, queria lhe dizer uma coisa.
Murakami: Pois não.
Pat: Obrigada por ter escrito este livro. Você diminuiu a minha solidão.
Murakami sorri: Quando entrar na água, feche os olhos e pense com toda a sua
força na sua nova condição. Ainda que não esteja bem certa do que significa,
diga: sou livre.Pat: Sim, menino corvo.
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