Thursday, September 19, 2013

Sangue Tupi


Ah, Jurema, depois que te conheci, passo os dias esperando tu. E vem Iansã, e vem Yemanjá e Pomba Gira e Obá e Oxum, mas, não tem jeito, eu quero mesmo é tu. É verdade que elas são lindas, nem sou louca de negar, mas são partes. Só tu, Jurema, é inteira. Elas usam títulos e se dizem rainhas porque desconhecem a força do nome mulher. Mas tu, Jurema, é sabida de ti e ser Jurema te basta. Do teu corpo terra, do teu corpo barro, do teu corpo Gaia, brota a seiva, a selva. É nele que corre o rio. É na tua respiração que a liberdade dança. É da tua vagina que se ouve o som: eu sou.

Monday, September 16, 2013

Criação


O Yang aprende a arte da coragem viajando no espaço e o Yin aprende a virtude da paciência esperando e relaxando no tempo. Até que YinYang, TempoEspaço, RepousoMovimento, MusaHerói se fundem e percebem que são um só. Foi assim, é assim e vai continuar sendo assim a jornada do espermatozóide ao encontro do óvulo.

Monday, September 09, 2013

Madona Negra


Negra minha, na condição de escrava, o meu desejo é igual ao seu: ventre livre.

Sunday, September 08, 2013

Quem sabe, um dia, os mortos vão se cansar de mim


"Aquele que reconheceu as exigências dos mortos baniu sua feiúra do outro mundo. Ele não se impõe forçosamente sobre ninguém, e vive sozinho na beleza e fala com os mortos. Mas chega o dia quando as demandas dos mortos também são satisfeitas." Jung, Livro Vermelho

Saturday, September 07, 2013


A todas as cabeças cansadas e sem rumo, colo.

A minha avó Sinhá


Hoje acordei lembrando dos ensinamentos da minha voinha Sinhá, desde os tempos em que eu tomava banho de mangueira no quintal de sua casa e roubava as balas que ficavam trancadas no armário da cozinha.

Foi a minha avó Sinhá que me ensinou a colocar a linha no buraco da agulha, pregar botão, cortar o tecido, enfiar os alfinetes e criar vestidos de bonecas, os quais ela, aliás, costurava com muito carinho à semelhança dos meus próprios vestidos, também confeccionados por ela na sua máquina preta de pedal. 

Acho que foi a minha mãe que me ensinou a rezar, não me recordo muito bem, mas foi a minha avó que me ensinou a ter fé. A acreditar nas tais linhas tortas, que são certas. 

Um dia qualquer, depois que me separei, sentei na cozinha do meu apartamento, acendi uma vela, fiz de conta que a minha avó estava lá presente comigo e comecei a conversar com ela. Precisava revisitar a minha infância e tentar esclarecer questões que, de alguma forma, permaneciam nebulosas. Ficamos  horas papeando sobre inúmeras situações do passado. Fomos de A a Z. 

De todas as "letras" que me incomodavam, tinha o "M" sobre o qual eu me questionava freqüentemente: por que os meus pais mentiam pra mim? Não estou falando aqui de grandes segredos de família, mas de qualquer mentira, mesmo as bestas, como “Mãe, o que é motel?” Motel é um hotel longe. Pai, falta muito pra chegar? Tá mais perto do que antes. Minha filha, vamos ali e voltamos já. E demoravam horrores para retornar. Como disse, coisa besta, figura de linguagem até, mas a minha alma de criança, vai saber porque, se ressentia disso, se ressentia das mentiras de qualquer tipo contadas não só pelos meus pais, mas por todos os pais em todas as eras da Humanidade. 

Essa - talvez - bobagem que chateou a minha criança interior durante anos, foi resolvida por minha avó numa sentada. Pensei que ela fosse argumentar que os meus pais queriam me proteger ou estavam com pressa ou qualquer uma dessas justificativas banais, que a mente pre-imagina. Entretanto, ela me disse: todas as vezes que eles mentiram foi por um só motivo: porque queriam ser pais perfeitos para você. Acreditavam que se fossem imperfeitos, não seriam amados. Fez tanto sentido pra mim. Pra mim e para as minhas próprias mentiras cotidianas. Para a minha necessidade de tentar ser perfeita para que o outro me aceite e me ame.  

No ano passado, viajei até o interior da Bahia e fui visitá-la na casa onde ela mora, a mesma desde que nasci.

- Vó, você faz um chá de cidreira pra mim?
- Vá lá no quintal pegar as folhas.

Fui no quintal e não encontrei as folhas - claro! É maluco isso, mas parece que é sempre mais gostoso quando uma avó acha as coisas pra gente, quando faz um chá que facilmente teríamos feito. Então, a minha avó levantou do sofá, foi até o quintal (eu atrás dela) e, sem nem pegar no corrimão, subiu as escadas que levam até os vasos de plantas. Passos firmes, corpo altivo. Na seqüência, desceu as escadas da mesma forma, foi até o fogão - que foi da minha mãe - e fez o chá. Começamos a beber e engatamos uma conversa.

- Pat, quero morrer. Tá na hora.
- Não depende de você, vó.
- Mas Deus já podia me levar. Conversei com ele.
- Já disse, vó. Morte acontece. Não depende de reza, de pedido, de querência.
- Vivi demais.
- Quem determina isso não é a Senhora, é o universo.
- 93 anos. É muito tempo, você não acha?
- Neste assunto eu não acho nada. Quem acha é Deus.
- Bem, eu tô pronta.
- Algumas pessoas não estão prontas e morrem do mesmo jeito.
- Passou da hora de eu ir.
- Vó, deixa de ser cabeça dura. Não se morre por decreto.
- Só avisei a Deus que, quando ele quiser, já pode vir me buscar.
- Quando ele quiser, ele vem.

É, hoje acordei pensando na minha avó, na sua voz clara quando, vira e mexe, falamos ao telefone, na sua audição impecável aos 94 anos. Nos seus ensinamentos sobre a vida e no meu aprendizado com ela sobre a impossibilidade de se decretar um final ao que ainda pulsa.  

Friday, September 06, 2013

Silêncio


A natureza é sábia: fez óvulo e espermatozóide mudos.

La Madona Negra


A criatividade é uma mulher negra: útero escuro.

Thursday, September 05, 2013

A única forma de sair do labirinto é através do amor


A minha repetição se repetiu: o apego ao poder. E eu me perdi no labirinto mais uma vez. Êta sombra louca, sombra rebelde, sombra minha, você ainda não entendeu? Todos os sábios, de todos os tempos já sentenciaram: só e somente só o amor. E sim, eu te amo.

Tuesday, August 27, 2013

11:55


Não vejo a hora de chegar 12. 

Wednesday, August 21, 2013

Transmutação alquímica


A branca que vira negra. O negro que vira branco.

Thursday, August 15, 2013


O oposto do feminino não é o masculino, é a ansiedade.

Existem as índias e existe você, Jurema.


Ah, minha cabocla, se eu pudesse, todos os dias eu seria possuída pelo seu espírito e o meu corpo seria seu. Sabedora de mim, jorraria leveza e liberdade. O meu útero, inseparável do útero mundo, distribuiria quentura e acolheria o homem guerreiro com a tranqüilidade que só o aconchego consegue ter. 

Tuesday, August 13, 2013

Crime e Castigo


O seu dolo é o orgulho. Ou será o meu?

Tuesday, July 30, 2013


O nosso inconsciente sabe. O nosso consciente, não só muitas vezes não sabe, como frequentemente, duvida. 

Wednesday, July 03, 2013

À beira-mar



Na balaustrada do Porto da Barra, Pat e Murakami tomam água de coco e conversam. O relógio da calçada marca 16:16, do dia 3 de julho de 2013.

Pat: Eu sei que você sabe.
Murakami: É, agora você sabe que eu sei.
Pat: Você esteve lá. 
Murakami: (sorri)
Pat: Tantas perguntas pra lhe fazer sobre o que acontece depois. 
Murakami: O seu conterrâneo Raul já sentenciou: "perguntas não vão lhe mostrar".
Pat: Verdade. Questionamentos inúteis. Digressões infinitas. Mas queria perguntar mesmo assim. Mania.
Murakami: Você quer perguntar ou controlar? Tentar prever os acontecimentos para não ser surpreendida pelo processo de nada serve.
Pat: O que eu quero mesmo é dormir e acordar na minha vida nova, como aconteceu com você.
Murakami: Nem se preocupe, está escrito.
Pat: Mas pode ser já? 
Murakami: Ansiedade só atrapalha.
Pat: É que demora demais.
Murakami: Faz parte. Digo, a exaustão.
Pat: Por que?
Murakami: Com tantas perguntas, nem parece que também esteve lá.
Pat: Estive, mas ainda não completei a volta.
Murakami: As minhas respostas não vão solucionar a sua equação.
Pat: Desculpe. Preciso parar com este meu cacoete de jornalista. Acho que o processo seria mais fácil se eu fosse japonesa.
Murakami (rindo): Seria diferente. Contudo, a ordem dos acontecimentos não mudaria.
Pat: Provavelmente teria menos pressa.
Murakami: O tempo não existe, já descobrimos.
Pat: Na floresta não. Mas estou de volta à cidade. 
Murakami: O pior você já superou, o redemoinho. 
Pat: Fiquei aliviada quando vi que o ‘toilet bowl’ estava no último capítulo do seu livro. Isso me deu a sensação de que estou na reta final. Mas tenho dúvida se, ao sair, fechei a entrada com a pedra. Será que vou ter que retornar?
Murakami: Só entra no redemoinho quem abriu a pedra. Só sai, quem fechou.
Pat: Ufa! Acho que ninguém conseguiria viver com aquela entrada aberta eternamente.
Murakami: Nem o Aladim. Abriu e fechou. Invariavelmente.
Pat: Mudando de assunto, mas continuando no mesmo, hoje é aniversário do Kafka. 
Murakami: Grande Kafka: "Fique sozinho em silêncio. Então o mundo se apresentará desmascarado".
Pat: Assim como você, ele encontrou uma metáfora incrível para descrever a revelação que presenciamos.
Murakami: Durma e a sua metáfora virá.
Pat: Perdoe-me por insistir, mas, estou mesmo cansada de passar grande parte do meu tempo no inconsciente profundo. É possível acelerar o retorno? Acordar mais rápido?
Murakami: Lamento, não há nada a ser feito.
Pat: Isso aqui tá parecendo Esperando Godot.
Murakami: "Nothing to be done", além de um mergulho no mar. Topa?
Pat (sorrindo): Bora. Mas antes, queria lhe dizer uma coisa.
Murakami: Pois não.
Pat: Obrigada por ter escrito este livro. Você diminuiu a minha solidão. 
Murakami sorri: Quando entrar na água, feche os olhos e pense com toda a sua força na sua nova condição. Ainda que não esteja bem certa do que significa, diga: sou livre.
Pat: Sim, menino corvo.

Saturday, June 29, 2013

Eu quis beber água da fonte


Quando cheguei na fonte, fui engolida, tiranizada, exaurida, esquizofrenizada, esquartejada. Humilhada, humilhada. Desilusionada. A fonte, única e absoluta, infinita, ilimitada, onisciente, atemporal, me reduziu à insignificância do nada. Uma impotente nada.

Tuesday, June 11, 2013


Sagrado e profano é tudo uma coisa só, mas tem gente que insiste em separar.

Saturday, June 08, 2013


Só os gênios conseguem compreender a qualidade subversiva da preguiça. Quer dizer, os gênios e os baianos.

Sunday, June 02, 2013


Eu vivo entre o sim e o não. Intervalo sem dono. Infinito poético.