Friday, April 07, 2017

Podem sair por aí dizendo que sou eu


A crina do unicórnio, o olho da jibóia, a fúria da Medusa.  Tudo o que não pode ser racionalizado, mas sentido, sou eu. O beijo de Afrodite, a batida do coração de Julieta, a respiração ofegante de Maria Madalena. Adivinhem? A gargalhada da Pomba Gira quando se entrega a Exu, o espreguiçar de Branca de Neve. A musa. A cuca pegando o cuco. Com certeza, sou eu. Também o totem recortado no papel rosa de seda, o talismã, o cálice, o elixir, a passagem secreta. O tabu. Eu. A fonte, a potência divina, o encontro orgástico, a cura milagrosa. Iansã fazendo amor com Thor na praia de Arembepe. Sim, podem sair dizendo por aí que sou eu. A mulher que dança flamenco com o filho morto nos braços. Afirmem: sou eu. A nordestina sem voz, sem água na garganta, sem paradeiro, sem destino. A menina nua que troca corpo por comida escondida numa serra pelada. A enfermeira arrastada na rua até a morte.  Sou eu. A mulher rejeitada, humilhada, excluída, perdida, traída, abandonada, renegada, injuriada, mal-falada. Exato. Você já sabe. A que jogaram pedra, cuspiram, sujaram, pisaram, castraram, condenaram, goraram, amaldiçoaram. A que se arrasta, que implora, que mendiga. A falsa, a perfídia, a sonsa, a fingida, a sanguessuga, a dissimulada, a suja, a louca, a ingrata. A trivial, a mediana, a medíocre, a derrotada, a fracassada. Tudo aquilo que você rejeita, esconde, foge, digo: sou eu. Com toda a dignidade que cabe ao meu ser inteiro, assumo: sou eu. A todas que vieram e as que virão: obrigada. Porque todas elas são eu.

Thursday, March 23, 2017

A insustentável leveza


Quando a alma sai da carne, em desespero, pede para voltar. Prenda-me!

Wednesday, March 22, 2017

No meio da testa


Às 6:33 me foi dada a lucidez. Não roubei. Me entregaram depois de ter encontrado com ele, olhado nos seus olhos e percebido que não é pavoroso, é só um pobre coitado como eu. Estava acordada quando o sol nasceu no meio da minha testa e ele entrou no quarto. Mesmo desperta, me sentia desorientada. Séculos de doutrina cristã me catequizaram para o bom, bonito e belo, mas ninguém me preparou para a purulenta sombra. Ele se aproximou. De tão surpresa, só me ocorreu olhar nos olhos dele. O que pode uma mulher de 80 anos, à beira da morte, desdentada e nua, em cima de uma cama num quarto fechado, fazer quando Lúcifer chega? Gritar? A solidão não me permitiu. Emocionei. Sou agnóstica, mas a idade me fez compreender que o absoluto persegue os desumanos e que com ou sem divindade, somos todos iguais: falhos. É, ele olhou nos meus olhos, me viu sem artifícios. Consenti. Passei tanto tempo desejando que alguém me amasse assim, com a barriga caindo no chão, peito flácido pendendo na cintura, cabelo ralo, branco, sal de frutas, que quando o tinhoso chegou, o medo já era desejo. Era a vontade de que alguém gostasse de mim mancando com a perna direita e tremendo com as mãos, que elogiasse o bigode grosso e cinza acima dos lábios murchos. Quando, desnuda, gaguejei a palavra amor, o demônio me deu um abraço longo. Se não fosse piegas dizer que os meus olhos lacrimejaram, diria. Prefiro admitir que a dignidade me fez chorar. A dignidade dele. O diabo me encontrou decrépita e não me subjugou. No meu desamparo, ele não me humilhou. Usou o seu poder para me aceitar. Você rouba almas? Me acolheu. São as próprias pessoas que se rifam, se vergam, se renunciam. Vi na face dele a de Deus. Por que? Truques. É do fado que a vida canta, atinar que o Diabo é Deus. O sagrado e o profano, um só, a ciência e a religião, brincadeiras de passar o tempo. Olhei de novo e vi na face dele, a minha. A minha. O fim das ilusões chegou numa piada. Gargalhei.

Wednesday, March 15, 2017


O mundo não precisa de alavancas. Ele flutua.

Saturday, December 03, 2016


A liberdade cresce por dentro.

Wednesday, November 30, 2016


Presa, caça, caça-dor? Sou disso não, seu moço. Prisão muita, soltura pouca. Vou seguir meu rumo. Amor.

Monday, November 21, 2016

idades


Você estava certo quando me disse que vão achar que você tem 60 e eu 35. Mas que importa a data de nascimento? E mesmo que saibamos a verdade (importa?), que eu tenho 60 e você 35, essa outra verdade não vai mudar, eu continuo com 35 e você 60.

Poder


Sabe o que eu faria se estivesse em seu lugar? Seguiria obstinada sem olhar para os lados e muito menos pra trás, até empapuçar deste caminho que não leva a lugar nenhum.

Oposições


Os nossos caminhos cruzaram e depois descruzaram porque enquanto você mira o poder, eu miro o amor.