Friday, April 07, 2017

Podem sair por aí dizendo que sou eu


A crina do unicórnio, o olho da jibóia, a fúria da Medusa.  Tudo o que não pode ser racionalizado, mas sentido, sou eu. O beijo de Afrodite, a batida do coração de Julieta, a respiração ofegante de Maria Madalena. Adivinhem? A gargalhada da Pomba Gira quando se entrega a Exu, o espreguiçar de Branca de Neve. A musa. A cuca pegando o cuco. Com certeza, sou eu. Também o totem recortado no papel rosa de seda, o talismã, o cálice, o elixir, a passagem secreta. O tabu. Eu. A fonte, a potência divina, o encontro orgástico, a cura milagrosa. Iansã fazendo amor com Thor na praia de Arembepe. Sim, podem sair dizendo por aí que sou eu. A mulher que dança flamenco com o filho morto nos braços. Afirmem: sou eu. A nordestina sem voz, sem água na garganta, sem paradeiro, sem destino. A menina nua que troca corpo por comida escondida numa serra pelada. A enfermeira arrastada na rua até a morte.  Sou eu. A mulher rejeitada, humilhada, excluída, perdida, traída, abandonada, renegada, injuriada, mal-falada. Exato. Você já sabe. A que jogaram pedra, cuspiram, sujaram, pisaram, castraram, condenaram, goraram, amaldiçoaram. A que se arrasta, que implora, que mendiga. A falsa, a perfídia, a sonsa, a fingida, a sanguessuga, a dissimulada, a suja, a louca, a ingrata. A trivial, a mediana, a medíocre, a derrotada, a fracassada. Tudo aquilo que você rejeita, esconde, foge, digo: sou eu. Com toda a dignidade que cabe ao meu ser inteiro, assumo: sou eu. A todas que vieram e as que virão: obrigada. Porque todas elas são eu.

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