Wednesday, December 22, 2010

Sandro Barbosa do Nascimento

Quem me lê já percebeu: eu sinto uma necessidade imensa de compreender as pessoas e as coisas de uma forma mais profunda. Eu gosto de questionar a superficialidade. É de mim. Olho a casca grossa que se formou nas muitas feridas, inclusive nas minhas, e logo tento fechar os olhos para mergulhar na carne que está ali. Cada vez mais, quero ir além dos julgamentos chapados e chegar na vida que pulsa por trás das manifestações defensivas ou ofensivas, tanto em mim quanto no outro.  

No início desta década, ocorreu o Seqüestro do Ônibus 174. Todos conhecem essa história. Sandro do Nascimento entra no ônibus 174, no Rio de Janeiro, e ameaça matar os passageiros. Por quase 4 horas, o seqüestro é transmitido ao vivo pela TV. Ele ordena que os reféns deitem no chão e chega a simular que mata um deles. Quando desce do ônibus, usando como escudo a professora Geisa Gonçalves, um soldado atira, mas quem acaba morrendo com 4 tiros é a refém. Sem ferimentos, Sandro é asfixiado e morto na viatura.

Quando ouvimos este relato, sem conhecer a trajetória de Sandro, muitos pensam: bandido deve morrer mesmo. É uma ótica. Eu, quando vejo alguém que comete este tipo de crime, faço a mesma reflexão que o documentário "Ônibus 174" fez: quem é a pessoa por trás deste ato? E, após assistir a este filme e entendendo o percurso do Sandro, acabei me perguntando como foi que ele não fez isso antes, tão grotesco foi o processo de exclusão social que ele sofreu desde a infância. 

Assim como no livro de Dostoievski, Crime e Castigo, cada vez mais passo a compreender que, muitas vezes, o maior castigado é aquele que comete o crime. Uma punição intra-psicológica que se arrasta por um longo período ou por uma vida inteira. Um fantasma, uma loucura, um exílio que assombra e não encontra perdão interno.

Neste final de ano, vou reconhecendo as minhas próprias máscaras e tentando me encontrar além das minhas atitudes dicotômicas de defesa e ataque que certamente prejudicam tanto a mim quanto aos outros. Vou tentando me des-soterrar e me achar atrás do meu esconderijo, da minha prepotência, da minha vaidade, da minha covardia. Das minhas palavras articuladas, das minhas manipulações e do meu discurso pronto. E, quanto mais encaro a minha sombra, mais tenho vontade de compreender o outro assim: sem julgamentos. Ainda é uma tentativa, mas me sinto bem com ela. Finalizo 2010, acreditando que é no âmago que está a beleza e a originalidade de cada um. Fazendo um exercício aberto de olhar a mim e ao outro além da superfície visível. 

Seqüestro do Ônibus 174, 12/06/2000.

Tuesday, December 21, 2010

Metáfora

Eu juro que estava fazendo um esforço sincero para sair da minha utopia, mas aí, veio ele e me transportou de novo para este lugar tão confortavelmente macio e quente que é a minha fantasia.

Eu te peço, não me julgues. Os meus algozes já me perseguem sem trégua. Falam na minha mente noite e dia, insistindo na mesma ladainha. Ai meu Deus, quanta repetição. De ti queria colo. E se colo não tiveres, dá-me a tua mão. E se a mão faltar, me envies uma maldição qualquer. Quem, como eu, na terra do desamparo vive, aceita o que na mesa calhar. E de pura fome, qualquer coisa come.

Monday, December 20, 2010

Já que alguém citou Lily Braun

De antemão declaro: sou feminista!  Sou completamente a favor de que a energia feminina (yin) seja nutrida tanto na mulher quanto no homem.  Dito isso, preciso esclarecer: eu não compactuo com pessoas que ficam insultando o outro publicamente. Com qualquer homem ou mulher que olha para o lado e diz: você é um machista chauvinista ou você é uma mulher feminista recalcada. O espaço da dignidade feminina ou masculina, na minha opinião, exclui ficar vigiando e punindo quem está ao seu lado.

Por que digo isso? Ontem, estava com alguns conhecidos e uma das mulheres, que se dizia feminista, ficou massacrando verbalmente um cara, até ele concordar publicamente que era um homem chauvinista. Fiquei besta. Não importa se isto é feito por um homem ou uma mulher, agredir o outro é um ato machista porque expressa uma energia yang descompensada. É acreditar que críticas duras e impositivas vão fazer com que alguém tome consciência e acorde. A meu ver, este tipo de atitude desdenha o feminino e reforça o próprio machismo porque, no final das contas, assume um paradigma masculino da nossa sociedade de que a energia censora (yang) é mais eficaz para conscientizar pessoas e promover uma mudança do que a energia yin. Sendo assim, para mim, feminista mesmo é aquele(a) que acredita na energia yin enquanto força transmutadora e não quem ataca ou censura os homens chamando-os de machistas.

Agora pergunto: você acha mesmo que um homem é machista por puro hobby? Outra pergunta: você acha que uma mulher que se submete ao destrato de um homem não sabe que isto está equivocado? Você acredita mesmo que uma pessoa que fuma não sabe que cigarro faz mal a saúde? Claro que racionalmente todos nós sabemos que tudo isso é errado: fumar, ser machista, se submeter ao machismo. A sabedoria popular reza "em mulher não se bate nem com uma flor" e, na lógica, entendemos perfeitamente o que isso quer dizer. O ponto é: nós não somos seres lógicos e racionais. Somos emocionais! Ficar punindo um homem ou uma mulher por ele ou ela serem machistas  não vai mudar a situação. Acredito até que a opressão só vai aumentar a carga masculina que está circulando, em detrimento de uma energia mais feminina.

Do meu ponto de vista, a questão do machismo é muito mais profunda. Quando um homem machista desrespeita uma mulher, acredite, antes disso, internamente ele já desrespeitou há muito a sua própria energia yin. E ele sofre. Porque a energia feminina dentro de um homem é responsável por sua criatividade, sua entrega, sua própria aceitação. Quando um homem é machista com uma mulher isto apenas traduz externamente o algoz que ele possui internamente. Doloroso algoz que recrimina a sua energia yin. Infelizmente isto também é válido para uma mulher. Ela aceita o descaso com o feminino porque internamente castiga a sua própria energia feminina.

Sempre lembro de um livro que li: "Change or Die". Ele descreve pessoas à beira da morte que precisam mudar as suas atitudes para que possam sobreviver. E sabe o que acontece? Mesmo sabendo que vão morrer se não mudarem, estas pessoas não conseguem se livrar dos seus condicionamentos. Por que? Porque a causa de um condicionamento não pode ser curada com argumentações lineares. É preciso chegar na raiz do problema.

De verdade, eu fico perplexa diante da nossa superficialidade. Nós preferimos focar na crítica (que é válida quando feita de forma construtiva), mas esquecemos de que o que realmente importa é nutrir o feminino tanto no homem quanto na mulher. No meio deste extenso asfalto, precisamos de menos britadeiras e mais flores. Menos ruído e mais silêncio. Mais colo e menos repressão. Como disse a poeta Cora Coralina, para mim, uma grande feminista: "Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta.". É preciso que sejamos cada dia mais feministas nutrindo e compartilhando a energia yin que existe dentro de nós. Juro que estou tentando fazer a minha parte. E se eu fui assertiva demais neste texto, acredite, é só um desabafo. Ao vivo, eu sempre prefiro um abraço.

Sunday, December 19, 2010

Homem, descaradamente, amo-te.
De prontidão, te aceito.
Dá-me a tua costela, Adão.

Eparrei, Margareth!



Elegibo

Saturday, December 18, 2010

Quem sou eu?

Desenho do Akira Kurosawa, SP nov. 2010. 


Foram tantas as tentativas desesperadas e obsessivas para me definir que o quantificável se perdeu no incontável. Num dia qualquer, por pura exaustão, eu desabei e cai. Tombei em mim. Neste espaço, amplo e infinito, o formulado era inútil e insensato. Então chorei. Gritei. Voei e me arrastei. Calei. E no silêncio, ouvi. De cabeça baixa, eu finalmente vi.


Meu progresso na aula de canto

Friday, December 17, 2010

SeverinaSeverino


se eu fosse um homem
eu seria tu, severino
e se fosses uma mulher
tu serias eu, severina

por isso
na minha severina a tua
metade
no teu severino o meu
espelho

Tuesday, December 14, 2010

Coisas que aprendi em 2010

Moçambique, 2010.


Aprendi que:

tentar mudar o outro é covardia ou prepotência. O que dá no mesmo.

por trás dos meus condicionamentos arraigados a única coisa que existe é medo. Nada mais.

o pior mau olhado é aquele que coloco em mim mesma.

não vale a pena ter medo de galinha (eu tinha!)

somos loucos. Preferimos o isolamento à entrega.

os adultos têm vergonha de falar a palavra "pum" e as crianças adoram!

colocar expectativa no outro não é burrice, é auto-abandono.

o big-bang reverso existe e a isso chamamos de essência.

as contradições só podem ser reconciliadas na profundidade. Na superfície somos todos irremediavelmente incoerentes.

quanto mais eu fujo da minha sombra, mais ela gruda em mim.

só quando você desiste de você mesmo é que a transformação realmente começa. Sabe aquela máxima: "é morrendo que se vive"... pois é.

a ditadura do "positive thinking" é uma das coisas mais cafonas dos últimos tempos.

o espermatozóide possui uma mobilidade ativa e o óvulo é incapaz de se mover. E nenhuma cultura ou modismo vai mudar isso.

eu me acho cada vez mais ridícula. Ponto.

todo mundo que mete o pau no facebook continua lá, buscando gratificações imediatas.

o oposto do amor não é o ódio e sim o poder.

E para 2011: Foco, Pat, foco!

A condição humana me olha na minha mais pura fragilidade.
Penso em reagir e um leve sussurro me diz: cálice.
Serena, escuto o silêncio do útero. Não falo.
Óvulo imóvel permaneço.
Receptora, suavemente calo.

Monday, December 13, 2010

A menina

Pelo caminho ela ia. Sozinha ia. Passo-a-passo, andava. Sempre em frente, caminhava. Em direção ao horizonte longe e vazio, algo dentro dela a empurrava. Compenetrada e solitária, a estrada percorria. Sem olhar para os lados, a sua sina a impelia. A andar, toda hora, todo dia.  Nas costas, a sua mochila de escola carregava. Sem muita razão e sem muito porquê, ela caminhava. Sem pai, sem mãe, sem irmãos. Só estrada, só caminho, só avançava. Metro-a-metro, sem interrupção, mecanicamente, marchava. Dela pouco se sabia. Uma menina, por certo, que mesmo com o passar do tempo, a mochila não tirava. Uma vez, ela suspirou e disse que o seu destino era seguir, sem parar. E sem parar continuava. Ensimesmada e desamparada, andava.

Eu tenho um segredo meu para lhe contar. Só pra você que tem o seu bem-querer em mim. Venha aqui, pertinho. Quero lhe falar no seu ouvido.  Segredo que se preza, como é este meu, só pode ser contado bem baixinho. E com um pouquinho de suspense, para que o coração, de antemão, se alegre. Já vou dizer, mas antes, suspire comigo. Vamos juntos até o oculto, onde os segredos vivem. Ouviu? :) Agora dentro de você tem um pedacinho de mim. Secreto e inviolável.


Sunday, December 12, 2010


Sentada na cadeira de balanço, ela pensou: cansei dos jogos de sedução e das manobras artificiais. Por favor, ninguém mais tente me conquistar. Parem com o festival de que somos todos tórridos e incríveis. Tudo isso é alimento podre para as carapaças de isolamento. A generosidade do incondicional me acariciou e, sem trapacear, eu me rendo ao que é natural, reto e puro. O que é verdadeiro me abraça com a sua permanência sincera.


Possuída por um jeito mordaz, ela me disse: "você sempre se apaixona pelos líderes prepotentes disfarçados de bons moços" e eu respondi: estranho, pensei que eles é que se apaixonassem por mim...

Pina Bausch por Wim Wenders


PINA - Tanzt, tanzt, sonst sind wir verloren from neueroadmovies on Vimeo.

Saturday, December 11, 2010

Transitando na Sombra II


quanto maior o gigante, maior a sombra * quanto mais profundo o abismo, mais alto o vôo * quanto maior a fragilidade, maior a força * quanto mais profunda a raiz, maior a árvore

Transitando na Sombra

A capacidade que eu tenho de me auto-destruir é proporcional à capacidade que eu tenho de me de auto-criar? Como será que muda a chave?

***
"Por que você me pergunta? Perguntas não vão lhe mostrar..." Raul Seixas





Friday, December 10, 2010

Ai, Bahia. Que saudade de você!




Ai, Bahia, que vontade da sua areia, do seu mar, da sua maresia que gruda em mim, do seu afeto incondicional. Que desejo da sua magia, da sua malemolência, do seu dendê, da sua preguiça sem culpa. Quanta saudade do seu calor que sempre me acolhe, do seu jeito que me desprende, da sua candura profana. Ah, sagrada Bahia, que doideira dos seus sabores e sons, de chegar aí e me entregar. A você.

Monday, December 06, 2010

Acorda, Alice!

Ela queria sair dali mas ele puxou o braço dela, obrigando-a a falar. Então ela reagiu: "você quer mesmo voltar a este assunto? Eu já entendi o seu ponto de vista. E sim, eu concordo com você. Tá satisfeito agora? Era isso que você queria? Que eu concordasse com você. Pronto. Concordei. Podemos finalmente encerrar este tema por aqui? Já disse. Eu assumo: tenho mesmo uma tendência a utopias afetivas. Eu idealizei você. Romantizei cinematograficamente. Mas depois de assistir a tantos filmes e ler dezenas de livros, você queria o quê? Já. Eu já absorvi os seus alertas. Todos. Mas, por favor, as culpas não jogue-as todas em cima de mim. Vai ver que é coisa de mulher... sei lá. Tem o movimento romântico,  as novelas e, em algum lugar, também tem de mim. Eu não quero mais falar disso. Chega. Sim, entendi. Você é quem você é. Não quer se encaixar na minha projeção e nem virar o modelo de homem que eu fantasiei. Justo. Você quer ser respeitado em seus limites e está cansado de ser sufocado por cobranças. Honesto. Demorou mas compreendi. A vida ensina. A gente bate cabeça, bate, bate até que todos os mitos sejam estourados na convivência. E, mesmo que eu queira criar novos, vem o cotidiano e me acorda. Vem alguém, como você, e me chacoalha. Difícil, mas obrigada".

Sunday, December 05, 2010

as calotas não me protegem do sol


Belíssimo o livro da minha querida amiga Paula Corrêa, com ilustrações da Amanda Justiniano e encadernado artesanalmente no Projeto Tear. Quem quiser adquirir um exemplar desta delicada obra é só mandar um e-mail para essa escritora profunda e sensível que é a Paulinha: paula33@gmail.com

"Não existe prova concreta que ateste que sou real. Sou translúcida e não sei exatamente quem me vê". Paula Corrêa



Insônia

Saturday, December 04, 2010

Homem não Chora

dormi com vontade de nascer de novo e quando despertei você continuava em mim. que bom poder ser outra, tendo sempre você aqui.

Friday, December 03, 2010

Vento


eu queria ser uma brisa leve, mas parece que a natureza me quer assim: ventania. respiro, respiro e nada muda. ou muda por alguns segundos e tudo volta ao mesmo lugar. intenso.

***

eu canso de mim. e quando os outros me cercam, eu canso de mim no outro. mas também estou exausta da solidão. tantas contradições. e eu não me suporto mais.

***

eu me queria plantada, mas é tudo tão errante aqui dentro. por isso, qualquer vinho barato me compra. mas não me leva.

***

ar. é só o que eu preciso. abraçar o vento. mas ele foge do meu beijo, mesmo correndo atrás de mim. venha um dia e me carregue. misture o seu desejo e a sua entrega na minha boca.


Farsa

Às vezes eu me sinto uma farsa. É como se todo mundo fosse, em algum momento, descobrir que eu não sou eu. Porque querer ser eu é querer, não é ser. Olho a rosa e vejo como ela apenas é. É rosa. Eu queria não ter nenhuma pretensão do querer. Suspeito que no não-querer eu seria invadida pelo meu eu em mim... sus-peito...

Tuesday, November 30, 2010

Cuidadores

Outro dia, estava meditando e caiu uma ficha: os homens são cuidadores por natureza. Antes que você, que está lendo, comece a concordar ou discordar de mim, gostaria de citar uma frase do Einstein: "Nenhuma pessoa realmente produtiva pensa como se estivesse escrevendo uma dissertação." Eu não pretendo, aqui, apresentar um racional porque cheguei a esta conclusão. Apenas tenho vontade de compartilhar uma compreensão existencial e não de promover um debate acadêmico. Mas a verdade (a minha a partir de agora) é que eles - os homens - são fundamentalmente cuidadores em sua essência. Isto não quer dizer que todos estejam, de fato, cuidando. Talvez alguns estejam embrutecidos, outros cansados ou ainda confusos. Mas no fundo, bem lá no fundo, o que eles querem mesmo é cuidar. Já sei que muita gente vai dizer (aliás, muitas pessoas já estão me dizendo): "ah, não, Pat, cuidar é coisa de mulher". Claro que é. Também é. Não se trata aqui de uma competição de quem cuida mais ou menos. Ou de uma briga territorial: este domínio é seu ou é meu? Todos temos este instinto: o de preservar. E, agora, finalmente (demorou!) percebi que os homens são profundamente cuidadores. Por que eu não enxergava isso antes? Porque eu apenas via o senso comum. Eu não via por trás das aparências. Porque talvez eu tenha sido condicionada para somente ler e entender certos sinais de cuidado e não fui perceptiva o bastante para ver que existem diversas formas e jeitos de cuidar. Porque fui programada para repetições e não para revoluções. Entretanto, de uns tempos para cá, comecei a prestar atenção nos sinais que estão por trás de clichês e rótulos que a sociedade impôs a vários homens (e mulheres!). Também comecei a sacar que muitos homens querem cuidar mas não sabem direito como, afinal o mundo estipulou que isso é coisa de mulher. Há de se considerar também que, muitas vezes, quando as mulheres cuidam, elas não estão cuidando de fato. Elas estão controlando. Melhor, ao invés de generalizar, vou ser honesta: percebi que, várias vezes, quando eu estava querendo cuidar de alguém, lá no fundinho, queria controlar essa pessoa. Horrível isso. O cuidado como uma arma de manipulação. Feio isso. Talvez os homens também acabem controlando quando cuidam. O controle é coisa do ego e não do gênero. Enfim, olho ao meu redor e vejo, cada vez mais, como os homens querem cuidar. Conversando com uma amiga sobre isso, ela parou, pensou e disse: "Sim! E as mulheres são transgressoras por natureza". Na minha cabeça deu eureka! Pena que estamos sendo tão pouco audaciosas e seguindo imersas em referências de uma sociedade pautada na competição e na dominação. Semana passada, conversando com a monja Heishin sobre a violência contra mulheres e homens*, refleti: a verdadeira transgressão é questionar qualquer tipo de convenção que prive homens e mulheres de mostrarem a sua verdadeira essência. Transgressão é sair destes estereótipos superficiais que apenas reforçam carapaças do tipo "os homens são egoístas e insensíveis".  Os homens são lindos. E nós, mulheres? Ah, não canso de falar: pura mágica. Que bom que tenho o prazer de conviver com homens e mulheres incríveis e não-conformistas com os quais continuamente aprendo que sempre encontramos brechas para os paradigmas existentes na sociedade. Só mais uma coisa: se você procurar enxergar racionalmente isto que eu estou dizendo, você não conseguirá ver. E muito menos sentir. Mas se um dia, todos nós enxergarmos e sentirmos isso, quem sabe, a partir daí, a essência será manifestada e o padrão irá mudar. E os homens poderão chorar abertamente e as mulheres poderão ousar livremente.

(*) Ensinamento do Dia

Monday, November 29, 2010

Orquídea Rosa, nov 10

Eu me quero sem máscaras. Sem figurino. Nua. Exposta. Eu me quero flor. Sem maquiagem. Sem efeitos especiais. Sem disfarces. Eu me quero aberta. Peito aberto. Coração aberto. Mente e olhar abertos. Céu. Sem cortinas de proteção. Descerrada. Eu me quero sem clichês, sem rótulos, sem formatos. Sem papéis definidos. Eu me quero improviso. Informulada. Sem ensaio. Eu me quero essência. Pura manifestação. Presença. Amor.

Só Dez Por Cento é Mentira



A desbiografia oficial de Manoel de Barros 

Friday, November 26, 2010

Notícias de uma Guerra Particular



Recomendo o documentário Notícias de uma Guerra Particular para entender um pouco mais sobre este combate sem trégua no Rio. Pode ser visto na íntegra no YouTube.

Thursday, November 25, 2010

Ensinamento do Dia


Hoje, a Monja Heishin e eu estávamos conversando sobre a violência contra a mulher e ela, com o seu olhar YinYang, observou: “o homem escuta desde criança que ele deve engolir o choro. Essa é uma das maiores violências que conheço”. Calei. 


Wednesday, November 24, 2010

Heróis reais

Andei pensando sobre o filme Tropa de Elite II, que eu ainda não vi. Explico: tenho refletido sobre o que as várias pessoas, que assistiram ao filme, comentaram comigo. Mais especificamente, pondero sobre um ponto: o fato de que muitas delas passaram a apontar o Capitão Nascimento como um grande herói nacional. Por um lado, como amante da arte, fico sensibilizada por constatar que o cinema é um meio mobilizador, mas por outro,  confesso que me questiono quando vejo um país ovacionando um herói fictício. Cada um tem o(s) herói(s) de mentira ou de verdade que quer. Entretanto, ouvindo todos estes relatos, eu me dei conta de que realmente prefiro os heróis brasileiros de carne e osso. Como nunca havia pensado sobre este assunto de forma mais consciente, me fiz a seguinte pergunta: quais brasileiros são os meus heróis? O primeiro que me veio à mente foi Paulo Freire. Ah, este sim é um herói! Daqueles que nós realmente precisamos para mudar este país. Ai como eu gostaria que ele virasse conversa de boteco, da mesma forma que é o Capitão Nascimento. Parece papo de intelectual? Só para os desavisados. Eu creio na revolução através da educação. Paulo Freire, sem sombra de dúvidas. Quem mais? Lembrei de Antônio Conselheiro, Zumbi, Frei Caneca, Chico Mendes. Também tentei resgatar na minha memória as heroínas brasileiras. Não conseguia me lembrar de nenhuma. Fiquei envergonhada. Fui lá no Google e coloquei: "heroínas brasileiras". Encabeçando a lista apareceu a baiana Maria Quitéria e, na seqüência, Anita Garibaldi. Aí, ufa, lembrei de Dandara, esposa do Zumbi. Admiro muito a história dela, da qual, infelizmente, não existem muitos relatos. Logo depois rememorei a também baiana Joana Angélica. Um sorriso me veio: quando criança, morei na avenida Joana Angélica em Salvador - será um sinal? ;) Passeando pela história dela e destas pessoas que acreditaram em revoluções possíveis, fiquei muito inspirada. Sei que ultimamente muita gente anda perdendo a crença nas utopias. Comigo acontece exatamente o movimento inverso. Mais e mais, acredito que precisamos de ideais revolucionários e de heróis reais. E continuar indo ao cinema, é claro!





Tuesday, November 23, 2010


O meu verso sobre a tua cama deita. Lê-me. Eu te suplico.


Nós

o seu desejo o meu
a sua vontade a minha
eu lhe embebedaria inteiro
você me sorveria?

o seu fôlego o meu
a sua ânsia a minha
eu lhe sentiria o corpo
você me desnudaria?

a sua boca a minha
o seu coração o meu
eu lhe entregaria a alma
você se renderia?

Sunday, November 21, 2010

Versos para um herói real

enquanto o herói
a sombra atravessa
e os dragões combate
a princesa dorme

quieta
faz do não fazer
o melhor
que pode ser feito e
serena dorme

com uma flor
nas mãos
ela mesma rosa
amorosa dorme

confiante
no seu herói
e no seu poder
delicada dorme

silenciosa respira
em aparente morte

ao útero rendida
dorme

Mulheres que nos enfeitiçam




“Porque tu sabes que é de poesia
Minha vida secreta. Tu sabes, Dionísio,
Que a teu lado te amando,
Antes de ser mulher sou inteira poeta.
E que o teu corpo existe porque o meu
Sempre existiu cantando. Meu corpo, Dionísio,
É que move o grande corpo teu

Quando Beatriz e Caiana te perguntarem, Dionísio,
se me amas, podes dizer que não. Pouco me importa
ser nada à tua volta, sombra, coisa esgarçada
no entendimento de tua mãe e irmã. A mim me importa,
Dionísio, o que dizes deitado ao meu ouvido
e o que tu dizes nem pode ser cantado
porque é palavra de luta e despudor.
E no meu verso se faria injúria

E no meu quarto se faz verbo de amor.”

Hilda Hilst

Friday, November 19, 2010

Caminhando e agradecendo



Gracias, Camino (julho, 2008)

Unicórnio branco


tanto tempo presa na agonia
que a tua pureza me estranha
tal pressa intensa a minha
que a tua leveza me arredia

teu passo é lento, íntegro
tua força proba, régia
teu presente o meu
agora simboliza
transmuta-me, enfim.


Monday, November 15, 2010

Turbulência

“No caso de despressurização, máscaras cairão automaticamente à sua frente. Coloque primeiro a sua. Somente auxilie pessoas com dificuldade após ter respirado normalmente. Informamos que o assento é flutuante."

desamparada em mim
desviada em mim
desmanchada em mim
desvalida, desvalida
desencontrada
desalinhada
delicada
desprotegida, desprotegida
desnutrida de ar
rarefeita
ao entardecer
tentando colocar a máscara
de oxigênio
primeiro em mim

Friday, November 12, 2010

Escutando verdades

Ele olhou para ela com aqueles olhos de quem havia tomado uma decisão definitiva e disse: "não consigo mais continuar nesta relação. Estou buscando paz e tranqüilidade, enquanto você insiste em desestabilizar o nosso fluxo. Refleti muito sobre tudo isso e cheguei à seguinte conclusão: algumas pessoas são apegadas a bens materiais. Este, evidentemente, não é o seu caso. Mas você possui um apego imenso a certos comportamentos. Você não só é muito intensa e impulsiva, como adora essa imprevisibilidade emocional que você criou para você mesma. Quando começamos a ter uma rotina um pouco mais serena, você dá um jeito de revirar tudo. Inventa mil viagens e mesmo quando está aqui em Sampa não sossega. Vive enlouquecida, metida em várias atividades. Já até perdi as contas de quantos grupos você participa  - executivas, leitura, teatro, responsabilidade social. Ah, já ia me esquecendo da sua última novidade que é o grupo de meditação. De que adianta parar uma vez por semana para meditar se você continua completamente conectada a esse turbilhão interno e externo? Você repete continuamente que não quer mais tanta movimentação, mas você não para. Nem externamente e nem internamente. Existe um caos dentro e fora de você. E sabe o quê? Ao longo desses meses, eu finalmente compreendi que você é completamente viciada nesta instabilidade emocional. Você vive  pregando o desapego, mas tem um apego desvairado à sua postura inconstante. E quer me arrastar com você nisso. Tenho a sensação de que quando começa a dar liga entre a gente, você quebra com todo e qualquer possível vínculo. Você tem uma necessidade visceral de romper com o contínuo, como se a continuidade significasse estagnação. Ah, também tem o outro lado da moeda: como você alimenta este ambiente profundamente inseguro, acaba sentindo dentro de você mesma uma grande insegurança, que lhe leva à urgência de controlar tudo aquilo que mexe com você: se controlar, me controlar, controlar os seus e os meus sentimentos. Até os acontecimentos você quer controlar. Quanta contradição! Enfim. Eu quero que você saiba que não compactuo mais com o seu vício. A vida me ensinou que o amor, inclusive o amor-próprio, necessita de muita quietude para acontecer. Precisa do tempo dos bichos, das frutas, da gestação. E você tem tanta pressa de viver, mas tanta pressa, que acaba passando pela vida sem viver de fato. Sem amar. Eu gosto de você. Gosto mesmo. Mas me diga: quando é que você vai crescer?"  Com um choro tão inevitável quanto a inevitabilidade daquele momento, ela sentiu o abraço quente dele e respondeu baixinho, quase inaudível: "Eu não sei".

Thursday, November 11, 2010

Folheando uma revista, li: "a verdadeira autoridade e poder irradiam de dentro". Parece tão fácil. Tão óbvio. Por que foi que me perdi tanto?

Almoço

Durante o almoço, ele ficou cutucando-a. Queria saber mais dela. E a cada frase ou pergunta, não perdia a oportunidade de provocá-la. Ela seguia cordial e tranqüila. Impassível apesar das sucessivas tentativas que ele fazia para acessá-la. Diante da pouca reação, ele não agüentou e resolveu ser bem direto:  “é incrível como você consegue adotar uma postura linear de frieza, como se nada sentisse. O seu distanciamento gelado é assustador para o outro. Ou, pelo menos, para mim.” Sem ter que pensar muito, ela sorriu conformada: “assustador é o mundo. Por isso me protejo atrás de uma observadora. O que eu queria mesmo era colo. Uma quentura que me derretesse. Um beijo que me desmanchasse. Queria ser tomada por um sentimento de entrega, que nunca mais me deixasse.” 

Alguém descreveu o que estou sentindo (ou Abacateiro)






Acordei hoje vendo abacate e percebi que a capacidade de conectar elementos aparentemente desconexos é a compreensão de que, no final, tudo no universo está conectado. Absolutamente tudo conectado: abacate, ar, coração,  silêncio, amor. Você não vê? Ah, querido abacateiro, "teu recolhimento é justamente/ o significado da palavra temporão" 
Obrigada, genial Gil!


Anahata Chakra - Chakra do Coração 

"Significado do Nome: "Intocado" ou "O Som não produzido" (batidas do coração).
Localização: Coração, centro energético do amor.
Emocional Equilibrado: Amor próprio e pela humanidade, verdadeira compreensão da compaixão e benevolência, aceitação, bondade, disponibilidade para o perdão, ajuda ao próximo, sabedoria, conscientização do outro, assentamento na estrutura terrena, dá consistência e vitalidade às aspirações amorosas, pacificação, fé na vida e nas pessoas.
Alimentos que estimulam o chakra: Frutas e verduras verdes (ex: abacate)
Mantra: Yam - centralizado no coração, desfazendo qualquer bloqueio na região cardíaca.
Elemento: Ar
Funções: Impulso de abraçar a sua Verdade, o Amor; reequilíbrio; altruísmo; compaixão."

Wednesday, November 10, 2010

Coisas de Deus

Ela estava em casa pensando nele, quando o celular tocou. Atendeu animada. Trocaram algumas palavras sobre a sincronicidade e ele foi logo ao ponto:
- Me diga uma coisa. Nunca lhe perguntei isso, mas agora quero saber. Esse texto que você escreveu no blog foi um recado pra mim, certo?
- (sem saber direito qual texto) Por que eu daria um recado para você através do blog ao invés de lhe falar diretamente?
- Sei lá. Você é sempre tão misteriosa.
- Eu não. Deus. Ele que começou com essa história de mistério. Sem falar nas mensagens invisíveis... na mágica...
- Lá vem você desviando.
- (Risos)
- Vai, fala aí...
- Aí.
- Você tá toda engraçadinha hoje, hein? Normalmente você usa sua máscara de séria.
- Eu sou séria. É que hoje coloquei o nariz de borracha.
- Eu já lhe conheço. Sem rodeios. Fala logo. Você escreveu isso pra mim, não foi?
- Foi.
- (Silêncio) Mesmo?
- Mesmo.
- Você falou rápido demais. Você não é assim, tão fácil. Agora tô duvidando.
- É, Deus também deixou muitas dúvidas no ar. A gente nunca sabe ao certo...
- Fala a verdade.
- Falo: tô morrendo de saudade de você. Vem pra cá? Aqui eu lhe conto...
- (Risos) Tô indo. 

Interpretação



Depoimento do Wagner Moura e da Carla Ribas sobre o Método de Preparação de Atores da Fátima Toledo.

Tuesday, November 09, 2010

Dandara

Dandara, Moçambique, set 2010.


Cada um no seu tempo. No seu ritmo. Na sua toada. Cada um na sua história, caminho, trajetória. Sentença. Destino. Missão. Cada um, cada um. Na sua pulsão. Em sua potência. No seu desejo. Libido. Cada um na sua ginga, rebolado, compasso. Cada um nos seus dilemas, no seu intelecto, na sua razão. Cada um incerto e certo. Vazio. Cheio. Cada um inteiro. O universo inteiro. Big Bang. Cada um carne e osso. Condição humana. No que pode ser. No que dá conta. No que é. Cada um singular. DNA. Subjetivo. Autoral. Cada um instinto. Bicho. Livre. Não domável. Criação. Intuição. Cada um expressão divina. Alma. Anjo e demônio. Íntegro. Cada um essencialmente inominável. Cada um vivendo cada coisa a seu tempo. Sem pular etapas. Cada um fluindo no seu fluxo. Cada um no outro de cada um. Cada outro em cada um. Cada um amor. Comunhão.


Presença


Africa, set 2010.

Queria abraçar e tornar-me só abraço,
 beijar e tornar-me inteira beijo. 
Queria, amando, ser puro amor.


Shiva diz a Devi: "Enquanto estiver sendo acariciada, doce princesa, entre no amor como numa vida eterna" 

Tradição hindu

Monday, November 08, 2010

Aula de Canto

Ele: Você canta?
Eu: Só o coração dos homens.
Ele: Ah, alma de sereia...
Eu: será que "a sereia pegou o marujo/ ou o marujo pegou a sereia..."

Recado para o Universo

Atacama, out 2010.

Me use. Estou aqui. Sou o meio. O canal. O instrumento. Tô na área.

Saturday, November 06, 2010

No dia em que...

As flores do Ale

No dia em que você me encontrar, eu queria ficar sem ruídos. Parada. Abraçada a você. Agarrada a você. Quieta. Isso. Quieta. Eu sei que eu sou confusa, que eu me fecho e me abro, que eu fico perto e distante, sem nenhum motivo, sem nenhuma explicação, sem nexo. Sim, eu faço tudo errado. Mas mesmo que eu tenha desacertado tanto, a vida inteira, no dia em que eu lhe encontrar, queria que você jogasse na minha cara o silêncio. Um perdão mudo de tudo o que eu deveria ter feito e não fiz. Ou fiz inexato. Eu sei. Nós sabemos. Eu me escondo quando deveria me mostrar, eu racionalizo quando deveria sentir, eu me tranco quando deveria me entregar. É. Mas mesmo que eu tenha sido tão imperfeita, tão falha, tão contraditória, por favor, não me questione. Não me peça justificativas. Não procure saber o porquê. Porque a verdade é que eu não sei o porquê e, quando sei, não sei de verdade. E talvez eu diga, mas fuja da essência. Ou fale, mas me exprima fragmentada. Na realidade, eu ainda não atingi o real e até me pergunto se alguma vez o real já foi expresso em mim. Por isso, mesmo com todas as minhas falhas insensatas, com todas as minhas limitações imperdoáveis, com todos os meus defeitos irreparáveis, no dia em que nos encontrarmos, eu queria apenas ficar colada ao seu coração. Quieta. Parada. Abraçada a você.

Tuesday, November 02, 2010

Sem ter que

Atacama, out 2010.

Sem ter que falar. Sem ter que fazer, fazer, fazer. Sem ter que controlar. Sem ter que pensar, refletir, ponderar, repensar. Sem ter que preencher as expectativas. Sem ter que planejar, projetar, programar. Sem ter que acordar cedo, sem ter que correr. Sem ter que competir, rivalizar, disputar, litigar. Sem ter que vencer. Sem ter que ter tarefa, dever, obrigação. Sem ter que se culpar, se cobrar, se exigir. Sem ter que ficar presa, ansiosa, confusa, sufocada. Sem ter que ficar. Sem ter que ir. Sem ter que embrutecer, se fechar, se defender. Se blindar. Sem ter que restringir, limitar, impedir, reprimir. Sem ter que medir, quantificar, rotular. Sem ter que determinar, fixar, demarcar. Sem ter que predefinir, prever, prognosticar. Sem ter que provar nada para ninguém. Sem ter que julgar. Que ser julgada.  Sem ter que ter que. Apenas respirando, existindo, sendo.

Boa pergunta

Ela se sentia muito atraída por ele. Não, atração era pouco. Ela estava completamente apaixonada. Achava-o diferente. E, ao mesmo tempo, tinha muito a ver com ela. Porém, quanto mais o sentimento escalava, mas o pânico de perder o pé da situação crescia no seu estômago. Até que ponto realmente valia a pena se envolver? Estava, de novo, refletindo sobre isso, quando o telefone tocou. Era ele: "acabei de ler o seu e-mail. É de cortar o coração ver os subterfúgios que você utiliza. De ver você se boicotando. Tantas figuras de linguagem, tanta coisa dita sem dizer coisa alguma. Às vezes, tenho a sensação de que você não possui amor próprio, que você não se quer o bastante. Por isso, fica todo o tempo tentando manobrar o meu sentimento para que o meu amor por você compense a falta de amor por você mesma. Você não percebe que a sua tentativa de não envolvimento e manipulação impede um vínculo entre nós dois? Você ainda não se deu conta de que um relacionamento entre duas pessoas que se gostam não é uma competição pelo poder? Fala pra mim, do que você tem medo? Quem foi que meteu na sua cabeça que amar é perigoso?" Acuada, ela ficou muda. Até queria dizer algo, mas a resposta não vinha. E quando o desconforto ficou maior que o silêncio, ele declarou: "vou aí." E desligou.

Monday, November 01, 2010

Ressurreição


Ilha de Moçambique, set 2010.

Você já se sentiu assim?
Com o coração exaurido e exausto
de tanto carregar um peso já morto
que insiste em não morrer?

Num cansaço tão profundo
que a cabeça tomba e parece
que o corpo vai desfalecer?

Você já sentiu isso?
Que o fim poderia ser o começo
mas mesmo assim
você insiste em não se render?

Continua refletindo e pensando
como deve fazer
ao invés de simplesmente
aceitar e ceder?

Você já sentiu?

Sunday, October 31, 2010


No amor sou completamente marxista: só acredito na práxis. É aí que ocorre a verdadeira revolução.



Como é fácil amar uma projeção. O difícil é entender que isto não é amor. É narcisismo.


Saturday, October 30, 2010



RAZÃO = um grande raso




Ela sentou na poltrona e, enquanto abria o vinho, me contou: "Sabe que frase ele colocou no FB? Você pra mim é problema seu". Gargalhamos as duas.

Thursday, October 28, 2010

Dom Quixote

Salvador Dali


“Sonhar o sonho impossível,
Sofrer a angústia implacável,
Pisar onde os bravos não ousam,
Reparar o mal irreparável,
Amar um amor casto à distância,
Enfrentar o inimigo invencível,
Tentar quando as forças se esvaem,
Alcançar a estrela inatingível:
Essa é a minha busca.”

Miguel de Cervantes

Wednesday, October 27, 2010

Encontrei Nietzsche no Atacama

Atacama, out. 2010.

"O homem é uma corda estendida entre o animal e o super-homem: uma corda por cima do abismo. Uma travessia perigosa, temerário caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar. O que é de grande valor no homem é o fato de ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um crepúsculo." -  Nietzsche, Assim falou Zaratustra, 1883


“Der Mensch ist ein Seil, geknüpft zwischen Tier und Übermensch, - ein Seil über einem Abgrunde. Ein gefährliches Hinüber, ein gefährliches Auf-dem-Wege, ein gefährliches Zurückblicken, ein gefährliches Schaudern und Stehenbleiben. Was groß ist am Menschen, das ist, dass er eine Brücke und kein Zweck ist: was geliebt werden kann am Menschen, das ist, dass er ein Übergang und ein Untergang ist.” Nietzsche, Also sprach Zarathustra, 1883

Monday, October 25, 2010

AdãoEva



Andei pensando sobre esse papo de que nós mulheres estamos evoluindo e os homens ficando para trás*. Demorei bastante para chegar à alguma conclusão, mas agora tenho uma opinião a respeito deste clichê: discordo totalmente. Totalmente mesmo. Se as mulheres estivessem realmente "evoluindo", elas entenderiam que o verdadeiro desenvolvimento só é possível quando existe uma harmonia das forças complementares: YinYang. Sem a integração do feminino e do masculino nenhuma evolução real é possível. O poder do feminino é imenso na organização psíquica dos homens. Da mesma forma que as mulheres precisam do poder do masculino para atingir a consciência da totalidade. Simplesmente não existe a eclosão do feminino, se o masculino não eclode. E vice-versa. E se nós mulheres achamos que os homens não estão amadurecendo como deveriam, então isto quer dizer que nós também não. Uma coisa é absolutamente interdependente da outra. Neste mundo embrutecido, estamos todos amedrontados e sem identidade. Somos todos sexo frágil. E nem vale a pena questionar quem é mais frágil. Esta pergunta apenas reflete uma lógica de mercado. Fragilidade não precisa ser mensurada e nem comparada, apenas acolhida. O mesmo devemos fazer com as forças feminina e masculina: abrigá-las.

(*) Principalmente depois que recebi um texto escrito por um homem que dizia: "Sem o machismo, o que vemos são homens fracos, passivos, sem iniciativa, amedrontados diante da nova mulher. Um homem sem forma, sem identidade. Por que nós, homens, estamos assim? Existe saída?".

Sossego

Moçambique, set 2010.

Hoje eu me sinto tranqüila, como se o tempo pudesse esperar.
Como a lua, serena. Como as estrelas que ficam olhando o milênio passar.

Hoje eu me atino tão calma, como se a compreensão
fosse um presente. Sem passado, sem futuro. Sem opinião.
Sem nada que possa atrapalhar o meu coração.

Hoje eu me movo mansa, como um fluxo sem impedimento,
uma rede de frente para o mar, um embalo sem pressa, sem procedimento.

Hoje eu me pressinto pacífica, num juízo instintivo,
numa confluência com o silêncio, num encontro com o primitivo.

Iansã - A Deusa dos Orixás



Nenhum vento poderá desviar a minha barca, nenhum raio mudará o meu caminho.

“Senhora da Tarde, Dona dos Espíritos, Carregadeira de Ebó, Senhora dos Ventos, Raios e das Tempestades. Esses e alguns outros são os nomes desta grande Obirinxá (Orixá fêmea). Rainha dos raios, dos ciclones, furacões, tufões, vendavais, é um orixá do fogo, guerreira e poderosa. Ela é a Mãe dos eguns (espíritos dos mortos), guia dos espíritos desencarnados, deusa dos cemitérios. É ela que servirá de guia, ao lado de Obaluaiê, para aquele espírito que se desprendeu do corpo. É ela que indicará o caminho a ser percorrido por aquela alma. Oiá relaciona-se com todos os elementos da natureza. A água, sob a forma de chuva, de tempestade. Foi o ar de Iansã que espalhou as plantas medicinais, anteriormente guardadas pro OSSAIN numa cabaça. Mas sua essência é o movimento e o fogo - é o Orixá do raio. Esta relação com o movimento e o fogo faz de Iansã uma divindade do sexo e do amor. Ela é rainha por ser a predileta de Xangô. E por ser mãe e rainha dos EGUNS, é o único orixá que não tem medo dos mortos. Seu número é o nove, produto de 3 x 3 - o par Inicial mais um, indicando continuação - puro movimento. Ela usa uma espada de cobre e um "espanta moscas"- o eruexim -, com o qual mantém os Eguns afastados.”

Sunday, October 24, 2010

Abertura emocional II

Ele ligou para ela com o intuito de convencê-la a se encontrarem. Hesitante, ela acabou concordando. Apesar de tantos meses arrastados, ela acreditava veementemente que as pessoas mudam - não por causa dos outros, mas por elas mesmas - e torcia sinceramente para que este fosse o caso. Sentindo-se ela mesma transformada, pegou o carro e foi até o café que ele havia sugerido. No caminho, lembrou da frase do Pablo Neruda: "tú y yo teníamos que simplemente amarnos" e, de súbito, o que é natural a encheu de alegria. Saltou do carro contente. Estava convencida de que a mágica seria maior do que aquele passado tumultuado. De coração aberto, atravessou várias mesas sem olhar para os lados e foi feliz abraçá-lo. Ele titubeou. Ela, porém, não se deixou intimidar. Estava decidida a não julgá-lo. Queria apenas sentir a sua presença e aceitá-lo. Ele se apressou em falar e, após algumas palavras sem nexo, prosseguiu com palavras que tinham menos nexo ainda. Ela sabia que ele queria dizer o que realmente sentia, mas o medo de se expor era muito maior do que ele. E, ao invés de se abrir, ele tentava manter-se incógnito através de sua sedução manipulativa .  O desapontamento foi, enfim, inevitável e, sem conseguir se conter, ela lamentou: "tão triste isso, mas eu cansei do que me impede de chegar até você. Eu cansei do seu medo, do seu jogo, do seu orgulho. Eu cansei das suas defesas, das suas meias-palavras, dos seus subterfúgios. Cansei do seu ‘faz-de-conta que’ está só um pouquinho apaixonado por mim quando a coisa que você mais deseja é ficar comigo. Cansei dos seus e-mails que querem dizer mas não dizem. Desta sua postura aparentemente fria e distante, sendo que a ansiedade lhe come por dentro. Cansei da sua mania de deixar no ar um clima repleto de tensão e dúvida, só para mostrar que você está no controle. Pra que todo esse esforço racional? O que posso dizer? Eu estou completamente apaixonada por você e deliberadamente aconchegada nas suas mãos". E, ao pronunciar estas últimas frases, mais uma vez, ela viu nos olhos dele uma vontade incrível de viver aquele sentimento, mas também um temor incomensurável de, ao fazê-lo, ficar totalmente vulnerável. Havia dentro dele um pânico do que poderia acontecer se ele parasse de dominar a intensidade de suas emoções e se rendesse por inteiro.  Um medo não daquele instante, mas do amanhã. E, novamente, ela compreendeu que nada do que ela dissesse ou fizesse iria mudar a angústia do dilema que ele sentia. Sem tomar o café que estava à sua frente, ela suspirou longamente, deu um beijo na boca dele e foi embora.

Friday, October 22, 2010

Respirando...



"Reading a newspaper, I saw a picture of birds on the electric wires in 2009. The photo was taken by Paulo Pinto. I cut out the photo and decided to make a music, using the exact location of the birds as notes (no photoshop edit). I knew it wasn't the most original idea in the universe but I was just curious to hear what melody the birds were creating. Yes! These birds created their music. They were composers!" Jarbas Agnelli

Thursday, October 21, 2010

Abertura emocional

Totalmente tomada pela desistência, ela levantou do sofá sem dar muita explicação, pegou a bolsa e foi em direção à porta. Antes de sair, virou-se e disse: "por mais profundo que seja o meu sentimento por você, não consigo continuar lhe querendo. O medo lhe paralisa. Você vive de intervalo em intervalo. Dá dois passos para a frente, sente-se completamente vulnerável diante de mim e volta dois passos para trás. Esconde-se nos seus pensamentos como se as suas emoções por mim lhe colocassem em perigo. E neste pseudo abrigo, fica durante dias bolando estratagemas para me conquistar sutilmente. Torcendo para que eu fique completamente enamorada de você, enquanto tenta enterrar qualquer vestígio de sentimento por mim. Sabe, o amor acontece na entrega e a entrega é um salto de fé que cada um tem que dar. Neste sentido, a falta de entrega de uma pessoa nunca poderá ser compensada pelo excesso de entrega da outra. E tampouco uma pessoa jamais poderá convencer o outro a se render. Por isso, mesmo lhe querendo tanto, vou ter que seguir". E saiu da casa dele da mesma forma que entrou: apaixonada, mas convicta de que ninguém muda ninguém.

Entrevista com Gilles Lipovetsky

Sim, o capitalismo já engoliu tudo, mas ele nunca será capaz de valorar o sentimento, de dizer quanto vale um beijo, de pasteurizar o amor, de impedir a Verdade. Por isso, acredito firmemente que aí reside a nossa única brecha: no coração.  Gostei muito desta entrevista com o filósofo Gilles Lipovetsky que recebi do meu amigo Atus.


Terra Magazine: O amor é, segundo você, uma das poucas coisas ainda não absorvidas pela mercantilização.

Gilles Lipovetsky:  Mas há uma mercantilização, mas há uma busca pela autenticidade. A questão é que a autenticidade hoje é móvel. Mas ela é verdadeira enquanto a vivemos. Há vários limites para a mercantilização. Um deles são os sentimentos, o valor amoroso. Outro limite são os valores éticos. E, por último, a verdade. Há um certo número de princípios que dá um termo à lógica da mercantilização e que faz com que tudo não seja espetáculo, show ou equivalente entre si. Isso é que permite a crítica da sociedade e também a fazê-la mudar. Há tensões, energias, potenciais que permitem imaginar críticas, correções. E será necessário fazer essas correções. Estou convencido de que as coisas um dia mudarão, mas não logo. Uma cultura que dá mais peso às grifes e ao consumo do que à criação não é algo normal. Há um desequilíbrio. Um dias as coisas vão mudar. E é a educação que deverá fazer isso. As coisas devem ser relativizadas. E para isso é preciso ter outros objetivos na vida. Mas isso não é o consumo nem a crítica do consumo que vai fazer.

Entrevista na íntegra aqui.

Monday, October 18, 2010

Metamorfose

Pôr-do-sol no Atacama, out 2010 (sem photoshop)

se um dia eu virar
um céu vermelho e estrelado 
 apenas me sinta
e venha comigo
na forma que você quiser

En la casa de Pablo Neruda

Chile, out 2010

“tú y yo teníamos que simplemente amarnos” 

Pablo Neruda

Tuesday, October 12, 2010

Sem título

Se eu pudesse
eu engoliria você inteiro
só para que o seu corpo
tocasse o meu por dentro
e a sua boca
beijasse o meu coração
incendiado

Saturday, October 09, 2010

Fim de Cena

Depois de ouvir todo o discurso repressor dele, ela respirou fundo e com os olhos marejados iniciou um monólogo por muito tempo reprimido: que as outras pessoas me censurem, digam que eu enlouqueci, que larguei tudo porque perdi o senso de realidade, eu até entendo. Mas você, você não. Você sabe o que me move. Fala. Fala pra mim quantas pessoas teriam o desprendimento de fazer o que eu fiz? De suportar o tranco de uma mudança real, profunda e verdadeira? De sair do discurso? De ser, de fato, a própria reinvenção? Porque todo mundo fala de mudança, mas cadê? O povo fica só no texto. Reclamando e dizendo que um dia vai mudar. Mas é tudo papinho. A maioria só faz transformação cosmética. Sabe porquê? Porque o vazio que precede o salto é f**a.  Porque uma mudança de verdade exige buraco. Exige uma temporada no nada. No limbo. Me diz: quem, por livre espontânea vontade, entra no inferno? Quem? E porque eu entrei? Não tinha porquê. Sei lá. Tinha um grito existencial dentro mim. Eu queria não ter, mas tinha. Eu tentava não sentir, mas sentia. Queria calar e fazer de conta que não havia. Mas havia. Por este motivo fui em busca de um sentido. E não, até agora eu não sei onde vai dar. PQP, eu não posso lhe apresentar respostas. Só tem caos dentro de mim. Já falei: tô no l-i-m-b-o. Sabe o que é limbo? Um estado totalmente vago. Eu não tenho a mínima idéia do que vai acontecer comigo daqui a pouco que dirá amanhã. Eu não sei se vou morrer na solidão e na miséria porque decidi mudar a minha vida. Eu não sei! Mas eu sei que não queria mais o que eu tinha. Tava tudo ótimo, mas no fundo não tava. Que fundo? Esse fundo que não tem fundo. Que você procura onde colocar o pé mas não acha. Essa voz que incomoda, que você reprime e volta. Por isso eu fiz o que fiz. Por isso larguei tudo. Por isso deixei você. Segui no escuro em direção ao que não se sabe. Não foi uma escolha. Foi um desespero. Uma sensação total e completa de exasperação. É por esta razão que eu lhe falo: pare de me segurar. Eu sei que você acha essa conversa loucura de maluco. Que a sua vida é incrível e que, aliás, você queria que tudo fosse exatamente como era antes. Eu entendi que você quer manter o status quo. Respeito. Mas eu? Eu quero diferente. Eu cansei de melhorias aparentes. Eu quero o salto quântico. E nada e nem ninguém vai me demover do que você classifica de sandice. É maior do que eu. Um indefinível me puxa. E se você me quer bem, como você diz que me quer, solte a minha mão. Deixe-me seguir para este lugar que eu nem sei se lugar é. Se você me ama, do jeito que você diz que me ama, por favor, me deixe ir. E quando eu estiver lá, se por acaso o pavor me consumir ou me paralisar, eu lhe peço: me empurre. Sim, use toda a força do seu amor para me arremessar no abismo.
Flores da Didi, out 2010.

"Terror de te amar num sítio tão frágil quanto o mundo.
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa."

Sophia de Mello Breyner Andresen

Conversando com o meu Mestre sobre a revolução do feminino, ele retrucou: “nós homens, entre nós, apenas mentimos. Precisamos de vocês, mulheres, para alcançarmos a Verdade. O Divino”.  Fiquei tão comovida que calei.

Friday, October 08, 2010

Thursday, October 07, 2010

As Neves do Kilimanjaro

Ele me mandou um e-mail e disse: “quero saber dessa sua aventura africana, que me lembrou um dos meus contos favoritos, chamado As Neves do Kilimanjaro. É imperdível. O personagem principal conversa com a morte na savana na África.” Curiosa, fui procurar o texto na net e acabei me esbarrando com uma frase bem masculina do mestre Hemingway. Em seguida, respondi: “agora estou ainda mais interessada em ler o conto. Uma mulher realmente nunca teria este tipo de pensamento. Simplesmente, não faz parte do nosso DNA.”


"Ela não tinha culpa de ele já estar acabado quando começaram a andar juntos. Como é que uma mulher podia saber que uma pessoa não queria dizer nada daquilo que disse; que uma pessoa falava apenas por falar e para se sentir bem? Depois que começou a fingir que falava verdade, as suas mentiras eram mais bem sucedidas com as mulheres do que quando ele lhes dizia a verdade. Não era tanto o fato de ele mentir, mas antes o de não haver uma verdade para dizer" Enrnest Hemingway in As Neves do Kilimanjaro.

Wednesday, October 06, 2010

As mulheres macuas

Três gerações na Ilha de Moçambique, set 2010.

Estava eu conversando e aprendendo com essas duas lindas mulheres macuas, quando Fátima, a mais nova, me perguntou se eu tinha filhos. Respondi que ainda não. Então,  ela me deu o seguinte conselho: "você deve engravidar e ter primeiro uma menina". "Uma menina? Por que uma menina?", perguntei eu, hesitante. E ela me respondeu (com um tom de quem diz: esta aí não entende nada mesmo): "Por quê? Porque você é mulher e uma mulher sempre deve ter uma filha primeiro." No dia seguinte, fui lá na net tentar decifrar essa "obviedade", explicada abaixo. Quanto ao primeiro bebê da Fátima, sim, foi uma menina. A fofucha que está aí na foto recebendo o banho de ervas.

“A estrutura social macua é matrilinear. A criança, quando nasce, passa a integrar o clã materno. Quem exerce a autoridade sobre os filhos é o tio materno mais velho: ele tem direito a intrometer-se na vida da irmã casada e até a censurar a conduta do cunhado, se vir que algo corre mal. O casamento só se pode efectuar com membros de outros clãs.
A mulher ocupa o centro da vida familiar: educa os filhos, cuida da casa e prepara a comida. A sua principal tarefa prende-se com a maternidade e para ela é preparada desde pequena. Poder dar à luz traz-lhe prestígio e, assim, o nascimento de uma menina é festejado com alegres ilulu – gritinhos típicos das mulheres macuas. O mesmo não acontece com os rapazes e a mãe costuma mesmo perguntar: «Valeu a pena sofrer tanto?»"

Esta é a tradição macua. Porém, atualmente, a situação da mulher em Moçambique é bem diferente.  Mais sobre o povo Macua, que vive na região norte do país, veja aqui.



Fatos da vida

Onde existe muita gente pobre...

sempre existe gente muito rica.

Tuesday, October 05, 2010


Em Moçambique, finalmente me dei conta de que o pior mau-olhado é aquele que coloco em mim mesma.  Este é o que realmente me afeta e me limita.


Linda você, África.

Moçambique, out 2010.


Estou tão enfeitiçada por você, África. Entregue aos seus encantos e dissolvida na quentura do seu aconchego. Transmutada em terra, em céu, em vento. A sua lua me pegou no colo e aconteceu: amoleci. O seu chão me transformou em raiz. O seu sol me beijou na nuca. Como resistir ao seu ar macio que respira na minha espinha? Como não me apaixonar pelo seu abraço inteiro? A sua carne tem alma - desnuda, íntegra, iluminada. Ah, negra sedutora, você tem a mesma mandinga que a minha querida Bahia: um bem querer que faz a gente lhe querer bem.

Sunday, October 03, 2010


êta travessia longa. Será que do outro lado, essa noção de lado acaba? Finalmente YinYang, AnimaAnimus, AdãoEva, SolLua? Afinal, o inteiro? Por fim, o todo? A harmonia dos opostos? Será?


a entrega verdadeira silencia todos os clichês * no espaço do imprevisível, as expectativas são surpérfluas e as classificações desnecessárias * quem se atreve a entrar no território do imponderável sem a velha armadura? * quem se arrisca na emoção do inesperado sem nenhuma garantia? * ah, como eu queria que o meu coração me engolisse, que a coragem do sentimento me inundasse, que o amor me levasse sem volta...

Saturday, October 02, 2010

Memória

Você pegou a bicicleta e saiu pela rua até o horizonte ficar mais perto do que o seu cheiro. Lembro-me como se fosse hoje do dia em que você foi embora e nunca mais olhou para trás. Fazia muito frio. O mesmo que faz agora.

Provocação

Ao ouvir aquela música, ele perguntou para ela: alguma vez, você já fez strip-tease? Surpreendida com o calor da provocação, ela sorriu. Levantou do sofá e lentamente foi até o canto da sala. Colada na parede, ela tirou a blusa e dançou. Só para ele.